Ademir Barbosa Júnior vence terceira edição do Prêmio Pallas de Literatura

O livro de contos ‘A pombagira do fim do mundo e outros contos’ foi escolhido entre 152 inscritos e será publicado pela Pallas no primeiro semestre de 2027.

A Pallas Editora anuncia Ademir Barbosa Júnior, o Pai Dermes de Xangô, como vencedor da terceira edição do Prêmio Pallas de Literatura, com o seu livro A pombagira do fim do mundo e outros contos. Reunindo 14 histórias, a obra foi escolhida entre 152 inscritas de diferentes regiões do país e será publicada pela editora carioca no primeiro semestre de 2027.

Nos contos vencedores, situações aparentemente ordinárias ganham contornos extraordinários e transitam entre as relações cotidianas e o universo sagrado das religiões de terreiro. Dirigente de uma tenda de Umbanda, ogã de Candomblé e autor de dezenas de livros sobre religiões tradicionais de terreiro, Ademir faz questão, porém, de separar a literatura do caráter doutrinário.

“O que importa é o verossímil, não a verdade ou o retrato de uma suposta realidade. O conto ou poema que se vale da espiritualidade das religiões de terreiro não é uma palestra, um bate-papo sobre história, fundamentos e doutrinas. É criação, recriação. Tem de ser literatura”, afirma o autor paulista.

Para Eliana Alves Cruz, integrante do júri final, o livro vitorioso se destacou pela combinação de elementos pouco usuais na literatura brasileira contemporânea. O outro jurado, Marcelo Moutinho, corrobora com a sua visão. Os dois já foram agraciados pelo Prêmio Jabuti na categoria Contos.

“Uma obra que se sobressaiu das demais pelo humor, pelo inusitado e pela coragem de incluir elementos do panteão das religiões de matriz africana misturados com cotidiano de um país rico em tipos populares e em usar muito do erotismo e desse humor escrachado, tudo numa dose muito equilibrada e com desfechos surpreendentes”, pontua Eliana.

O humor também tem, para Ademir, uma relação direta com a sua experiência religiosa e, naturalmente, de vida. Afinal, ele acredita que “tudo num autor é autobiográfico” mesmo, e principalmente, quando ele não está escrevendo sobre si mesmo.

“No contato com Exu, e aqui vem a vivência dos ensinamentos ancestrais, aprende-se que o riso e a gargalhada dissolvem miasmas de toda espécie. Assim também com o humor na narrativa: os moralismos, as certezas, as imposições de toda sorte perdem seu valor absoluto. Há uma inversão da ordem, pois o riso provoca o caos da incerteza para novos ajustes, novas composições”, explica Ademir.

 

Prêmio passa de romance para conto

Criado em 2024, quando a Pallas completou 50 anos, o Prêmio Pallas de Literatura chega à terceira edição com uma mudança no seu eixo. Após duas edições dedicadas ao romance, passa a aceitar na disputa apenas livros de contos. A decisão buscou ampliar as possibilidades de participação de escritores negros e tornar a premiação acessível também a autores que nem sempre podem se dedicar à escrita de um romance.

“A mudança de romance para conto traz mais autores e mais possibilidades. Há bons autores que nem sempre têm disponibilidade para se dedicar à escrita de um romance, que não é nem mais nem menos importante que o conto, mas exige mais tempo e dedicação. Acho que é um marcador de democratização do prêmio”, avalia Cristina Fernandes Warth, editora da Pallas.

Em 2024, a vencedora foi a multiartista brasiliense Tatiana Nascimento, com o romance Água de maré. O romance escolhido em 2025 foi Malhada das graúnas, da médica pernambucana Márcia Moura.

Em 2026, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia foram as regiões que concentraram o maior número de participantes, mas também houve concorrentes do Ceará, Distrito Federal, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul, entre outros estados, nesta terceira edição — a primeira conquistada por um escritor.

Na primeira etapa da seleção deste ano, os escritores Carlos Eduardo Pereira e Calila das Mercês escolheram 12 obras. Em seguida, Eliana Alves Cruz e Marcelo Moutinho avaliaram esses livros pré-selecionados e optaram pelos contos de Ademir.

Entre literatura e religiões de terreiro Nascido em Piracicaba (SP), em 1972, Ademir Barbosa Júnior é escritor, pesquisador, professor e dirigente da Tenda de Umbanda Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas, fundada em 2015. Conhecido também como Pai Dermes de Xangô, é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente realiza pós-doutorados em Comunicação, na Universidade Paulista (UNIP), e em Ciências da Religião, na PUC-Campinas.

Autor de mais de uma centena de livros, dezenas deles publicados, Ademir tornou-se especialmente conhecido por sua produção ligada às religiões de terreiro, mas a ficção acompanha a sua trajetória desde os primeiros livros. Entre os títulos estão Memórias do presidente, premiado no 1º Festival Universitário de Literatura; O sapo voador, selecionado para programas de leitura do governo federal; o romance policial Quem matou João Paulo; Walter Wanted ou o Evangelho Queer de São José; e Filé à cubana.

“Comecei a publicar com ficção em sentido amplo, nunca deixei de fazer e ainda tenho muitos inéditos. Só não apareciam tanto. Com o Prêmio Pallas de Literatura, esse trabalho fica mais evidente”, almeja o escritor.

A escolha também surpreendeu a própria editora. “É um autor muito ligado ao universo afro-brasileiro, um sacerdote, um estudioso das religiões, que tem muita coisa publicada nessa área, mas que tem um veio literário. E os contos são divertidos, são instigantes. São retratos de trabalhadores e do cotidiano muito atual, muito ligado ao universo das religiões afro-brasileiras. Para mim, foi uma grande e boa surpresa”, declara Cristina.

Além da publicação de A pombagira do fim do mundo e outros contos pela Pallas, prevista para o primeiro semestre de 2027, Ademir receberá mentoria literária do escritor Henrique Rodrigues, curador do Prêmio Pallas, durante o processo de preparação e lançamento da obra.

 

Um café antes da notícia

Ademir Barbosa Júnior estava em casa quando Henrique Rodrigues entrou em contato para conversar. O escritor perguntou se poderiam falar mais tarde, mas ouviu do curador que o assunto era urgente e que ele estava na sede da Pallas. Desconfiou do motivo por alguns instantes.

“Pedi um tempinho para tomar um café, pois depois tinha de me preparar para tocar gira, e um filho de santo viria me buscar. Tomei o café e conversamos, junto com as editoras Cristina e Mariana. Fiquei muito feliz e agradecido, inclusive para com a parte espiritual que cuida de meu trabalho como ficcionista”, conta.

Orientado a manter o resultado em sigilo até o anúncio oficial, Ademir dividiu a notícia apenas com a família e poucas pessoas próximas. A primeira foi Cleusa Caldeira, sua supervisora de pós-doutorado na PUC-Campinas. “Se o título do livro traz a figura da Pombagira, tinha de ser uma mulher”, diz Ademir, feliz da vida com a novidade.

Ricardo Ramos Filho, presidente da UBE, lança o livro ‘Vovô é uma estrela’, pela Maralto Edições.

Na obra, o autor transforma a história de seu próprio bisavô em uma calorosa narrativa sobre afeto, superação e igualdade de gênero no esporte.

 

 

A jogadora de futebol profissional Lalu vive o melhor momento de sua carreira. Após se destacar no Corinthians, ela recebe uma proposta irrecusável para atuar no Portland Thorns, uma das principais equipes de futebol feminino dos Estados Unidos. Prestes a iniciar uma nova etapa de sua vida, ela segue acompanhada pelas lembranças e ensinamentos de seu trisavô Américo, figura fundamental em sua formação e maior incentivador de sua trajetória.

Essa é a trama de Vovô é uma estrela, novo livro do escritor Ricardo Ramos Filho, publicado pela Maralto Edições e ilustrado por Angelo Abu. O autor fará lançamento presencial na próxima quarta-feira, dia 8, a partir das 18h, na Livraria da Vila – Unidade Fradique Coutinho (Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros).

A obra dá continuidade à história iniciada em Vovô é um cometa, também publicado pela editora. No primeiro livro, os leitores acompanham a infância de Lalu, sua paixão pelo futebol e a relação afetuosa construída com o trisavô Américo. Já nesta nova narrativa, a protagonista enfrenta os desafios da vida adulta guiada pelas memórias, pelos valores e pelos ensinamentos deixados por ele.

A inspiração para o compor os títulos nasceu de uma história real. Américo foi inspirado no bisavô de Ricardo, com quem o autor conviveu até os 18 anos e de quem herdou o gosto pelas histórias e pela imaginação.

 

 

“Era um velhinho que gostava de contar histórias, e eu adorava ouvi-las. Acho que muito do escritor que me tornei nasceu dessa oralidade tão fascinante. Ele morava no Rio de Janeiro, era extremamente carinhoso e sempre festejava minha chegada. Eu me sentava ao lado de sua cadeira de balanço para ouvir relatos de um Brasil que já não existe mais”, recorda Ricardo.

 

Na narrativa, a morte não é apresentada como um ponto-final, mas como uma transformação. Após partir, Américo torna-se uma espécie de estrela-guia que continua iluminando o caminho da neta, ajudando-a a enfrentar desafios, dúvidas e mudanças. “Existir é, de certa forma, preparar-se para perder pessoas queridas. Choramos, passamos pelo luto e seguimos em frente. Mas acredito que algo dessas pessoas permanece conosco. Como estrelas que continuam nos guiando”, afirma o autor.

Além da dimensão afetiva, o livro incorpora discussões contemporâneas relacionadas ao esporte, como o movimento Equal Pay, que reivindica igualdade salarial entre atletas homens e mulheres. Para Ricardo Ramos Filho, abordar o futebol feminino também é uma forma de questionar preconceitos historicamente associados ao esporte.

“Quem disse que futebol é uma atividade exclusivamente masculina? Gosto de explorar o universo feminino em meus livros. Muitas vezes escrevo em primeira pessoa assumindo a perspectiva de meninas e mulheres. É um exercício importante de empatia e aprendizado”, explica.

A ética também ocupa papel central na obra. Em um momento decisivo da trama, a protagonista Lalu coloca o bem-estar de uma adversária acima da possibilidade de marcar um gol, reforçando uma das principais mensagens do livro: vencer só faz sentido quando há respeito ao outro. Para o autor, em uma sociedade cada vez mais pautada pela lógica da competição e da meritocracia, valores como honestidade, respeito e solidariedade muitas vezes acabam sendo negligenciados. Em sua visão, conquistar resultados positivos não é suficiente se isso ocorrer às custas do outro. A verdadeira vitória, segundo ele, está associada à capacidade de competir de forma justa, reconhecendo a humanidade e a dignidade de todos os envolvidos.

As ilustrações da obra são assinadas por Angelo Abu, que adotou um processo criativo híbrido para dar vida ao livro. Embora tenha recorrido a ferramentas digitais, o artista buscou reproduzir na tela as técnicas e materiais que tradicionalmente utiliza em seu trabalho, como lápis, aquarela e pastel. As imagens foram produzidas no programa Procreate, com o uso de uma caneta digital diretamente sobre um tablet. “Como a fidelidade técnica e o prazer em fazer se mantiveram intactos, fiquei muito satisfeito com o método”, afirma o ilustrador.

Voltado ao público jovem, mas capaz de emocionar leitores de todas as idades, Vovô é uma estrela é uma obra sobre perdas e permanências, sobre a força das lembranças e sobre aqueles que, mesmo ausentes, continuam iluminando nossos caminhos. O livro já está disponível no e-commerce da Maralto Edições e também integra o Programa de Formação Leitora Maralto, voltado a escolas de todo o país.

 

 

O autor

Ricardo Ramos nasceu no Rio de Janeiro, em 1954, e vive em São Paulo desde a infância. Escritor, roteirista, cronista e professor de Literatura, é mestre e doutor em Letras pela USP, com pesquisa voltada à literatura infantil e juvenil. Autor de mais de 30 livros, acumula importantes reconhecimentos na área, com obras como Computador sentimental, vencedora do Prêmio Adolfo Aizen, e O livro de dentro da concha, selecionada para o catálogo brasileiro da Feira de Bolonha. Também atua como produtor cultural e, atualmente, preside a União Brasileira dos Escritores (UBE).

O ilustrador

Angelo Abu nasceu em Belo Horizonte, em 1974, e foi criado em Porto Seguro. Formado em Cinema de Animação pela UFMG, atua como ilustrador há mais de três décadas, com destaque para livros infantis e juvenis. Ao longo da carreira, ilustrou obras de autores contemporâneos e adaptações de clássicos da literatura, entre elas Dom Casmurro, Moby Dick, Simbad, o marujo, Macunaíma em quadrinhos e A sombra da mangueira.

 

Serviço:
Lançamento em São Paulo do livro Vovô é uma estrela
Autor: Ricardo Ramos Filho
Data: 8 de julho (quarta-feira)
Horário: 18h
Local: Livraria da Vila – Unidade Fradique Coutinho
Endereço: Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros

 

JOSÉ SERÁFICO

José Seráfico no programa Espaço da Palavra.

Sócio da UBE participou do programa do Portal Web Manaus PWM na última segunda-feira, dia 25 de maio.

Com o tema “Poesia no encanto da palavra”, o autor e sócio da União Brasileira de Escritores José Seráfico esteve presente no programa Espaço da Palavra e dividiu a sua escrita poética com o público e o apresentador Marcos Frederico, do Portal Web Manaus PWM.

Assista agora ao programa completo:

UBE Cast entrevista SAFA JUBRAN | Ep. #50 | Temp. #02

Safa Jubran é professora livre-docente na Universidade de São Paulo, onde leciona língua e literatura árabes. É orientadora pelo PPG-LETRA (FFLCH-USP. Líder do grupo de pesquisa Tarjama (CNPq). É tradutora literária, recebeu em 2014, o prêmio de Tradução da ABL e em 2019 o prêmio internacional o “Sheikh Hamad Award for Translation and International Understanding”. Em 2021 foi Jurada do “International Prize for Arabic Fiction”. É responsável por disponibilizar uma grande parte das obras literárias traduzidas para o português . Entre as obras mais recentes estão: Stella Maris, Meu nome é Adam, de Elias Khoury e Diário da tristeza comum, de Mahmud Darwich. Traduziu também obras de várias escritoras, entre elas: a egípcia Nawal El Saadawi; a libanesa, Hoda Barakat; a palestina, Adania Shible; a omani, Jokha Alharthi. Para o árabe, traduziu, Água Viva e Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, Quincas Borba, de Machado de Assis e Dois irmãos, de Milton Hatoum, entre outros.

 

Assista agora ao episódio completo:

LIVRO ABORDA EROTISMO E SEXUALIDADE NA RELIGIÃO DE UMBANDA

Coletânea de textos evidencia a relação entre corpo e espiritualidade

>O novo livro de Ademir Barbosa Júnior (Dermes) aborda o erotismo e a sexualidade na Umbanda com respeito às individualidades e à diversidade, refletindo sobre experiências cotidianas que entrelaçam corpo, mente e espírito. Assim, a espiritualidade não é concebida como desconectada da vida ordinária: ao contrário, esta é ressignificada de modo a ser experenciada de forma extraordinária.

Publicado pela Editora Mauad X, Umbanda: erotismo e literatura apresenta reflexões sobre masturbação, transexualidade, poliamor, prostituição, dentre outros, temas que, segundo o autor, precisam ser pensados de forma inclusiva pela religião de Umbanda, uma vez que são realidades concretas não apenas nas ruas, na escola, no trabalho e na família, por exemplo, mas também no cotidiano das comunidades-terreiro. Nesse contexto, o corpo não é um impedimento às vivências espirituais, místicas, litúrgicas etc., mas o protagonista da existência individual e das convivências.

Para Dermes, “privilegiar a ética, dialogar criticamente com as diversas instâncias da moral e rejeitar o moralismo são algumas das maneiras de realmente manter nossos terreiros-quilombos abertos a todos (as) que queiram estar e contestar (des)caminhos espirituais e religiosos que sufocam e empobrecem a vida, em vez de promovê-la”.

O livro tem prefácio do psicólogo clínico, psicoterapeuta e Doutor em Comunicação e Semiótica Jorge Miklos e posfácio de Adrianne de Paula Fonseca, Doutoranda em Comunicação na Universidade Paulista (UNIP) e bolsista CAPES/PROSUP. Pode ser adquirido na https://www.martinsfontespaulista.com.br ou em https://www.mauadx.com.br.

Doutor em Comunicação pela UNIP, Mestre em Literatura Brasileira pela USP, onde também se graduou em Letras, o autor é Doutor honoris Causa pelo MCNG-IEG (2018) e pela FEBACLA (2019) e Pós-graduado em Ciências da Religião pelo Instituto Prominas. Nascido em Piracicaba em 02/8/1972, desde 2019 é patrono e titular da cadeira 62 da Academia Independente de Letras (sede em Pernambuco), com a divisa “Axé”. Em Piracicaba idealizou e coordenou inúmeros projetos culturais e o Fórum Municipal das Religiões de Terreiro (2011-2014), produziu curtas-metragens com temática dos Orixás e dirige a Tenda de Umbanda Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas, fundada em 2015, em Blumenau – SC, e responsável pelo Projeto Terreiro Itinerante. Em 2014 presidiu o Fórum Europeu de Umbanda, em Leiria, Portugal, e em 2015 foi o vice-presidente do Fórum Catarinense de Umbanda, em Blumenau. É Ogã há 24 anos do Ile Iya Tunde (hoje sediado em Embu das Artes – SP), com a dijina Tata Obasiré.

UBE Cast - PAULA FABRIO - Blog

UBE Cast entrevista PAULA FÁBRIO | Ep. #33 | Temp. #02

Paula Fábrio é reconhecida por seus romances, todos finalistas de importantes premiações, entre eles “Desnorteio” (Patuá, 2012), que lhe rendeu o Prêmio São Paulo de Literatura. No gênero juvenil, Fábrio foi distinguida como Autora Revelação e recebeu a láurea Orígenes Lessa de Melhor Livro Jovem, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, com a obra No corredor dos cobogós (SM Edições, 2019). Casa de família (Companhia das Letras, 2024) é seu romance mais recente.

Assista agora ao episódio completo com participação da Paula Fábrio:

O CORREDOR

A mãe passara mal.

Algo impressionante ocorre quando alguém próximo está morrendo. Sabemos que a pessoa vai morrer sem demora. Todos tentamos mudar o que é imutável. Ela vai morrer de qualquer jeito.

Insistentemente, procuramos médicos, remédios, curas milagrosas. Não existe, ela vai morrer. E o morrer é assim, nunca mais a veremos nesta vida. Há que acreditar em outra. Mesmo assim, ela vai morrer.

Os seis irmãos moravam separados. Viviam em lugares distintos, daquele Estado. Casaram-se e foram viver distantes um do outro. Mesmo que se amassem, juntos não dava certo. E esse amor era de se contestar. Que tipo de amor amofina tanto a ponto de só conseguir sobreviver se longe? Era mesmo de se contestar. O pai e a mãe tentaram de tudo. Mas eles não sabiam fazer de outra forma, tudo era exacerbado, tudo era à flor da pele: sentimentos bons e ruins, palavras ásperas, vocabulário pedante. Tudo arquitetado para deixar cada um resumido à sua insignificante vida.

Surpreendente era que se encontravam em sonhos, os mais profundos. Se conectavam por telepatia. Sempre sabiam o que estava acontecendo um com o outro, mesmo longe. Perto, não dava certo mais que três dias.

Ela ficou doente, a mãe. O pai já havia partido. Ela padecia de uma enfermidade que deuzulivre um deles se acometer. Seu sangue havia que passar por uma máquina a ser purificado, como se ela o devolvesse são. Tal máquina purificava o que havia de ruim e também levava o que havia de bom. A mãe era vampirizada ali mesmo. Às vezes aguentava, às vezes não.

Foram chamados todos. Ela estava em tratamento intensivo. Tiveram que viajar por horas para chegar a tempo de ver a mãe.

Os seis reuniram-se à frente da Unidade, tarde da noite. Ficaram ali durante muito tempo, sem uma notícia sequer. Acostumados a falar muito, mal podiam abrir a boca. A enfermeira do quadro, tal qual àquela dos filmes de guerra, colocava o dedo indicador nos lábios, fazendo bico.

Obedientes, iniciavam falando ao pé do ouvido, em seguida, não conseguiam medir o volume das falas: – E a mãe? Precisamos saber como ela está. – Quem vai procurar alguém para perguntar? – A essa hora, ninguém vai dar informação. – Vai tu, pois conheces o funcionamento do hospital.

Sem alternativa, seguiam impacientes esperando por notícia.

De repente, um deles avistou um conhecido ao fundo do corredor imenso. Era, sim, o colega da irmã mais velha. O fora há muitos anos. Talvez nem sequer se lembrasse dela. Mas tentariam de qualquer forma. Gritar não podiam. Não podiam também sair correndo ao seu encontro. O corredor enorme e antigo, assim como toda arquitetura do prédio, com tábuas que se mexiam ao pisá-las, fazia ruídos a qualquer passo.

– Mas tem que haver um jeito! Vai lá e chama o cara!

No vai e vem das discussões, um se decidiu: – Psiu… psiu… psiu… Em vão, o alvo não foi atingido. O moço nem viu que era com ele. Novamente: – Psiu… psiu…psiu… Ainda nada.

Era difícil crer que não conseguiriam respostas depois de tantos sacrifícios. Tinham vindo de tão longe! Sim, a doença era grave e a mãe se negava a alguns procedimentos. Afinal, uma fístula no braço, para o resto da vida, não era pra qualquer um! Esperavam, então, que pudesse, um cristo, dizer-lhes que havia salvação.

Em meio a discussões silenciosas, não perceberam que, indo ao encontro do tal informante, estavam duas senhoras idosas, que caminhavam com dificuldade e que, a cada psiu, se voltavam para eles.

Quando se deram conta do que estava acontecendo, não havia mais tempo de desfazer o mal-entendido. Tentavam sinalizar para que não voltassem. Se entreolhavam, quase a gargalhadas, implorando para que alguém tivesse uma ideia para mudar a situação. – Vai lá, diz que não é pra elas! Não conseguiam.

As duas deram meia-volta a caminhar no longo corredor. Os passos curtos e vagarosos demonstravam a idade e a paciência em atendê-los. Eles seguiam sinalizando que não voltassem, num movimento que imitava um aceno. E elas respondiam também acenando. Isso demorou uma eternidade. Os seis já não aguentavam mais. Certamente, cairiam num riso descompensado. Mas as idosas estavam chegando mais perto e mais perto. E quando se aproximaram, ao invés de perguntarem o que queriam com elas, deram-lhes a notícia.

O riso enrustido agora se desfez.

 

 

Sou Kátia Nascimento. Muito de professora. Muito de acadêmica. Muito de escritora. Muito de Umbandista. Como professora, sou das Letras. Como acadêmica, sou das Letras. E mais Letras como escritora. Como Umbandista, sou de Iemanjá, que representa as águas salgadas que envolvem o Universo. E é nesse envolver o Universo que me lanço em lugares distintos, sem nunca me sentir pertencente. Sou brasileira, do Rio Grande do Sul. Mas, a vida meio nômade que meu pai nos proporcionou, me fez viver um pouco em cada canto. Então, sou muito gaúcha, um pouco paranaense e um pouco catarinense. Agora sou um pouco portuguesa, SE CALHAR, aveirense. Também canto e faço teatro. Publiquei A vida Mística de Eugênia (2017), pela Editora Chiado, Rio das Pedras (2020), pela Editora Traços & Capturas, Fio do Silêncio (2021), pela Kotter do Brasil, Emboscada (2023), pela Vespeiro Edições, de Curitiba, Crônicas de Saravá – memórias de um cavalo de Umbanda (2023), pela Kotter de Portugal, e O Livro no Corpo (2025), também pela Kotter de Portugal.

O DOM DA BOCA

Ter boca é tão bom!
Bom para comer um prato especialmente preparado,
beber aquele drinque festivo no copo alto fino,
despejar tudo que não te faz bem, reclamar com estilo,
fazer biquinho, caretas, mostra raiva ou desprezo.
Bom para beijar, e beijar, e beijar.

 

Bom para expressar ideias, sentimentos, histórias e até mesmo protestos,
deixar entrar a nutrição e o prazer,
sussurrar, deslizar, respirar perto, e morder de leve,
saborear uma fruta fresca do pé, um chocolate e um café,
expressar alegria, simpatia, e conexão com outros.

 

Bom para viver intensamente,
chorar,
calar,
gritar,
cantar,
declamar, falar besteira,
gemer,
e até tocar um instrumento de sopro.

 

Se parar para pensar, a boca é onde corpo, mente e emoção se encontram.
Ter boca é bom pra caramba!

Meire Marion é professora de inglês, língua e literatura, escritora e poeta. É diretora da UBE, responsável pelo Prêmio Cláudio Willer de poesia. Têm sete livros para crianças publicados. É colunista da Revista Voo Livre de literatura. Também participa de diversas antologias com poemas e contos.

Sueli Carneiro é a vencedora do Troféu Juca Pato 2025 - Créditos: André Seiti - Itaú Cultural

SUELI CARNEIRO VENCE O TROFÉU JUCA PATO DE 2025

Sueli Carneiro é a vencedora do Prêmio “Intelectual do Ano” – Troféu Juca Pato de 2025, organizado pela União Brasileira de Escritores (UBE). Ela receberá o troféu das mãos de Míriam Leitão, ganhadora no ano anterior.

Em 2024 a filósofa publicou o livro “Lélia Gonzalez: Um Retrato” (Zahar), concorreu com Daniela Arbex, Jeferson Tenório, Lilia Schwarcz e Maria Valéria Rezende. A votação foi realizada de maneira online pelas sócias e sócios da UBE.

A cerimônia de entrega do Troféu Juca Pato – Prêmio Intelectual do Ano será feita no dia 28 de novembro, sexta-feira, às 21 horas, durante o FliPetrópolis, no Palácio de Cristal.

A UBE parabeniza todas as escritoras e escritores indicados ao prêmio, bem como agradece às sócias e sócios da entidade por votarem em um dos cinco finalistas.

À Sueli Carneiro, vencedora deste ano, nosso agradecimento especial.