“edifícios guardados”, por Adenildo Lima

 

a música toca suave nos labirintos
transmitindo uma paz e uma harmonia
capaz de transformar o mundo
esperançoso
o menino olha o tempo e brinca
mas parece que tem medo de alguma coisa
a música acompanha cada momento

 

uma lágrima cai no chão de concreto
o cachorro lambe a face do seu dono
dele sai um amor tão sincero

 

o menino sente inveja do cão
e observa o tempo

 

os faróis se abrem se fecham
a cidade parece um mar com ondas fortes

 

o menino observa cada cena

 

a cidade parece um dragão cuspindo fogo
algumas pessoas se assustam
outras parecem que já se acostumaram

 

a música
sente-se invadida pelas buzinas dos carros

 

a metrópole está pequena
os prédios estão alto demais
o campo transformou-se numa floresta de concreto
e as pessoas procuram a paz deixada em algum lugar

 

a cidade parece o mar com ondas fortes
música já não há mais
harmonia também não
parece que só o amor do cão caminha nas calçadas
contrastando com o dragão cuspindo fogo

 


Adenildo Lima é natural de Colônia Leopoldina (AL) e vive em São Paulo desde 1998. Com uma escrita que trata dos dilemas sociais, considera que seus livros, tanto em verso como em prosa, descrevem uma época pós-moderna. Em 2025, foi indicado ao Prêmio Intelectual do Ano, organizado pela UBE, da qual é sócio filiado e, em 2017, se candidatou a uma cadeira na ABL. Agora em 2026, está
trabalhando uma nova edição do seu romance, Maria, pela Akuanduba Editorial, e tem lançamento previsto para este ano de um livro de poemas, pela Laranja Original. E na caminhada literária, já ganhou e foi finalista e semifinalista em diversos prêmios. Atualmente, além de se dedicar à literatura, leciona no Senac.

E-mail: adenildolima@gmail.com
Instagram: www.instagram.com/adenildolima.oficial/


 

Escritora Heloísa Prazeres lança novo livro de poemas na ALB.

A Academia de Letras da Bahia (ALB) realiza, no dia 26 de maio (terça-feira), às 17h, o lançamento de ‘Jardim sobre mesa de vidro’ (Editora P55), da Acadêmica Heloísa Prazeres.

O evento faz parte do projeto Livros na Mesa e é aberto ao público.

Autora de mais de uma dezena de títulos de poesia, Heloísa Prazeres integra a literatura baiana contemporânea como poeta e ensaísta. De acordo com o escritor Aleilton Fonseca, presidente da ALB, neste novo livro, “a poeta passeia com desenvoltura pela técnica do verso branco, o metro livre, convocando o ritmo de modo a balancear as estruturas entre as lições da tradição e as conquistas da contemporaneidade.”

Para a também Acadêmica Edilene Dias Matos, em ‘Jardim sobre mesa de vidro’, o corpo poético é solicitado para construir a estética das cenas. “…a reação do corpo vem de onde sai a palavra marcada por uma arquitetura erotizada e significante. O fogo de artifícios de cada sílaba faz, nesse conjunto de poemas, o texto tomar corpo e ecoar na memória sensível do leitor”, ressalta a confreira.

Já o premiado poeta, ensaísta, tradutor e professor gaúcho Pedro Gonzaga define a obra como “um trabalho íntimo, quase um brocado, de intensa sensibilidade sonora e imagética, uma prova do vigor criativo de uma poeta madura, que domina à maestria seu ofício, mas que nunca deixa de contemplar a juventude do mistério da verdadeira criação”.

A ALB conta com apoio financeiro do Governo da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia, e da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba).

74° ciclo de estudos Técnicas de Oratória.

Sueli Carlos, sócia da UBE, ministrará aulas de oratória ao lado de outros especialistas no assunto. Segue abaixo mais informações sobre o 74° ciclo de estudos Técnicas de Oratória:

 

Início: 9 de maio de 2026, sábado, das 10h às 12h30

O curso será ministrado nas seguintes datas: 9, 16, 23 e 30 de maio; 13, 20 e 27 de junho; e, 4 de julho de 2026.

 

Programação:

• Vencer o medo de falar ao público;

• Falar pensando e pensar falando;

• História da Oratória;

• Postura;

• Voz;

• Gestos.

 

Orientadores: Dr. João Meireles Câmara, Sueli Carlos, Humberto Emiliano

Colaboradores: Selma Ramos de Oliveira Carvalho, Gouveia de Hélias, Lígia Peixoto Figueira

Modalidade: Presencial

Local: Auditório – Escola de Formação Profissional Orlando Laviero Ferraiuolo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI.

Endereço: Rua Padre Antônio de Sá 333 – Próximo à estação Tatuapé do Metrô.

Emissão de Certificado ao final do curso | Custo: Gratuito

 

Inscrições: Através do WhatsApp (11) 93727-0109 ou por e-mail: comissaomutiraocultural@gmail.com

Nota de falecimento – Marina Marino, escritora, professora, editora, ativista e livreira.

 

A União Brasileira de Escritores (UBE) manifesta seu profundo pesar pelo falecimento da escritora Marina Marino, diretora da entidade, ocorrido nesta segunda-feira, dia 27 de abril de 2026, em São Paulo, aos 68 anos.

Marina era pedagoga de formação, onde teve uma sólida carreira como professora. No mundo dos livros, a escritora publicou livros de diversos gêneros, entre adultos e infantis, entre eles, “O mágico que veio de longe” e “Tudo foi vivido – O feminino sobre a terra”.

Em agosto de 2022, criou a “Voo Livre – Revista Literária”, nela ocupava o cargo de editora-chefe. Filiou-se na UBE em 2023, onde atuava na diretoria da entidade. E, em junho de 2024, fundou o “Coletivo Mulherio das Letras São Paulo”, onde seguia em atividade.

O velório será na Funeral Velar Morumbi (Av. Giovanni Gronchi, 1358 – São Paulo, SP), hoje, dia 27 de abril, das 18h às 22h.

Aos familiares, amigos e leitores, os nossos mais sinceros sentimentos.

União Brasileira de Escritores.

Flávio Ulhoa Coelho lança seu novo livro “Nicolas Bourbaki e a Gênese da Matemática na USP”.

Editado pela EDUSP, sócio da UBE, o professor Flávio Ulhoa Coelho realiza evento de lançamento nesta quarta-feira, dia 29 de abril, às 17h.

 

 

No dia 29 de abril, o professor Flávio Ulhoa Coelho, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), lançará seu livro “Nicolas Bourbaki e a Gênese da Matemática na USP”. A obra conta a história do grupo Bourbaki e sua influência no desenvolvimento da matemática do século XX, que chega até a USP quando alguns de seus membros passam a lecionar no curso de matemática da universidade após a Segunda Guerra Mundial.

Matemático fictício, Nicolas Bourbaki foi criado para nomear um grupo francês de estudiosos da área, cujas primeiras reuniões aconteceram em Paris em 1934, mesmo ano da fundação da Universidade de São Paulo. No livro, Flávio Ulhoa Coelho conta a história da formação do curso de matemática da USP, abordando a colaboração inicial dos professores italianos e focando na contribuição de Nicolas Bourbaki. O grupo Bourbaki, formado por seis matemáticos franceses, ainda é ativo, e seu legado na USP é de grande importância, como nos indica a leitura do. O autor nos mostra que, mais do que um mero pseudônimo, a herança do grupo para o campo da matemática foi um heterônimo com visão acadêmica e estilo próprios.

 

 

Serviço:

Lançamento do livro “Nicolas Bourbaki e a Gênese da Matemática na USP”, de Flávio Ulhoa Coelho

Data: 29 de abril de 2026 – quarta-feira

– 17h: Sala Villa-Lobos: conversa do autor com Claudio Possani

– 18h: Livraria João Alexandre Barbosa: sessão de autógrafos.

Local: Biblioteca Brasiliana

Endereço: Rua da Biblioteca, 21 – Cidade Universitária, São Paulo

“FILMAGENS”, por Renato Moura

Às vezes sou leve, às vezes pesado como as paredes que me circundam. Eu e elas nos entendemos. Gosto de lhes contar minhas mazelas, de infernizá-las com perguntas e assim agitar seus átomos preguiçosos. E elas me respondem, avançando contra mim. Nas horas lentas, derramadas por um antigo carrilhão feito em madeira de lei, três delas avançam, e um quadro se aproxima, meus ouvidos entregues à música barroca. O quadro é uma reprodução de certa obra renascentista que traz em primeiro plano uma mulher seminua. A mulher não me vê, seu olhar perdido me ignora. Mesmo assim, vou entrar no quadro.

Entro. Nele vou descobrir de onde vem a magia que me encanta. Pode vir da deusa, da musa, da amante, da amiga, enfim, de quem meus devaneios quiserem que essa mulher seja. Estamos num campo, as flores sorriem, nos observam e sentem nossos cheiros. Corremos descalços ao sabor da brisa fresca e nos abraçamos sob o sol da primavera. Depois, fazemos amor embalados pela lira de Eros. O campo não tem paredes, não tem fronteiras. Alegres e exaustos, montamos um corcel branco e fogoso que logo se põe a galopar e quase não responde aos nossos comandos.

A mulher do quadro… Minha primeira filmagem. No campo florido não há impedimentos para nós. Fujo da realidade? Ou quero fazer da realidade um campo florido? Saio, então, do quadro e de casa.

A cidade parece se esconder do dia enquanto deambulo pela avenida que separa o mar dos prédios. Em sentido contrário, um vendedor de pipocas vem vindo. Empurra a carrocinha devagar, tão devagar que paro ao lado dele e peço um saco médio. Depois, pago e me afasto, sem esperar pelo troco. Eu e o vendedor somos mundos estranhos postos em contato na vastidão do domingo. Ele vende pipocas para não ter que vender a alma ao diabo; eu ando a esmo para que o diabo não queira comprar a minha. Fora do quadro, continuo a filmar o que vejo. À minha frente, um cobertor rasgado serve de abrigo a dois garotos franzinos. Um deles o puxa de cá, o outro de lá, se estranham, quase brigam. Quando lhes dou algumas moedas, sorriem, interrompem a disputa encarniçada e reviram os olhos vermelhos de crack. Valeu, tio – dizem.

Chego à praça, o sino da igreja toca e algumas pessoas entram. Parecem afobadas, mas, sem nenhuma afobação, um bêbado se aproxima da porta principal. Percebo seu avançado estado etílico pelo andar torto e adivinho o que vai fazer. Sem me notar, ele entra no templo como se entrasse no lar que não tem. Será que algum fiel fará o obséquio de devolvê-lo à rua? Não espero para filmar.

Passo agora em frente à portaria de um grande edifício e vejo duas meninas imersas num beijo novelesco. Devem ter cerca de vinte anos, talvez até um pouco menos. Há quantos minutos estão assim e por quantos mais ficarão? O mundo dos enamorados gira no mesmo ritmo da minha caminhada sem rumo. Gira mesmo? Por vezes acho que não e até duvido que o planeta gire. Mas certo Jean Léon Foucault e seu pêndulo disseram que gira.

As meninas imersas no beijo, o bêbado afogado em pinga, os garotos que ainda devem estar brigando pelo cobertor e o vendedor de pipocas não poderão ver a lua em sua exuberância crescente. Eu também não. A chuva não quer que a vejamos, talvez por ciúme. Uma pena.

Sigo sem pressa, filmando a cidade com o olhar. Não fiz um roteiro, capto imagens e no meu filme a história surge do que me causa sensações variadas, misturas imprecisas de desalento e ânimo.

No domingo que finda começo a sentir a chuva na pele. Antes, ela parecia não me molhar, como se fosse de uma secura ímpar. Agora já não é mais. Meus braços estão salpicados de gotas que brilham como pequenos diamantes. Gosto da imagem, por isso a filmo.

A noite chega e por fim ou por início chego a casa, onde tudo promete se repetir. Ou não. Olho para a mulher que no quadro balança os longos cabelos cor de mel. Seu olhar, antes pousado num ponto qualquer do nada, já não me ignora. Sinto que a deusa, a musa, a amante e a amiga vão sair da moldura. A vida lá fora existe e elas também a querem filmar.

 

(publicado na Antologia do Prêmio VIP de Literatura – edição 2022 – AR Publishers Editora)

 


Nascido em 1958, é natural de Niterói (RJ), Dr. em Educação, Prof. Titular aposentado da UFRJ e membro da APPERJ. Como Renato Massari, publicou os romances “Similitudes” (2022) e “Barca das Lembranças (2021) – este agraciado com o Prêmio Planeta Litterae (Editora Planeta Azul). Em 2025, já como Renato Moura, obteve o quarto lugar no Prêmio Nacional Poiesis de Literatura, com o microconto “Ser”, e Menção Honrosa no Concurso Primavera Eterna (Editora Typus) com o conto “Tatuagens”. Tem ainda poesias e contos publicados em revistas virtuais e antologias.

@renatomassari.oliveira


Entre a dor e a lucidez

O retrato visceral das mazelas mentais em Sinthoma, de Victor Leandro.

A Editora Temiporã lançou, neste ano, Sinthoma, romance do autor manauara Victor Leandro. O escritor vem consolidando seu nome no cenário literário regional ao explorar, com profundidade, as tensões sociais e políticas que marcam a região Norte. Em 2025, com a publicação da novela Rio das Cinzas, Leandro já havia revelado o impacto severo da crise climática e a negligência do Estado diante das vulnerabilidades da população local.

Em Sinthoma, o foco se desloca para um debate urgente e crescente: a saúde mental. À medida que os transtornos psiquiátricos se tornam mais visíveis na sociedade contemporânea, surge a inquietação: como as instituições e o poder público realmente lidam com essas pessoas? O livro não oferece uma resposta simplista, mas sim um convite contundente à reflexão.

A narrativa acompanha o Dr. Hermes durante o último plantão de um hospital psiquiátrico em Manaus, às vésperas de sua desativação. Ao cruzar os portões, o médico encontra um ambiente inóspito e pacientes submetidos a um estado de total desamparo. O impacto das histórias de abandono e exclusão social que encontra ali levanta uma questão central: para onde essas pessoas serão levadas?

A trama ganha contornos mais complexos com a Dra. Ana, uma figura enigmática que convida Hermes a percorrer uma noite marcada por revelações. Mais do que o hospital, o autor desvela uma cidade também sintomática, que agoniza sob o abandono estatal. Com uma linguagem fluida, Victor Leandro conduz o leitor por uma jornada tensa e necessária. Sinthoma é uma obra fundamental que reacende debates adormecidos, mas que, silenciosamente, corroem o tecido da nossa sociedade. Deve ser lido.

Sobre o autor:

Victor Leandro é ensaísta e autor de ficção. Em 2011, recebeu o prêmio nacional Luiz Ruas, destinado ao melhor ensaio sobre literatura, pelo trabalho intitulado O Norte Impossível – Ficção, Memória e Identidade em Narrativas de Milton Hatoum. Publicou as obras O Artista do Fracasso, Estocolmo, Degredo, Rio das Cinzas, dentre outras. Em 2024, recebeu menção honrosa no concurso internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, pelo romance O Fantasma e a Travessia. É professor de filosofia na Universidade do Estado do Amazonas.

Contatos:
viktorleandro@hotmail.com
@silvavictorleandro

TESE DE DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO ABORDA MERCADO RELIGIOSO

Evento em livraria na Avenida Paulista reúne Povo de Axé e da Comunicação

 

No dia 29 de março, às 15h, na Livraria Martins Fontes Paulista, acontece o lançamento de FOI EXU QUE ME DEU”: Exu Coach e a Teologia da Prosperidade na Umbanda, de Ademir Barbosa Júnior (Pai Dermes de Xangô), evento que contará também com atrações culturais. Publicado pela Editora Aruanda, o trabalho é a edição em livro da tese de doutorado em Comunicação que o autor defendeu na Universidade Paulista (UNIP) em setembro de 2025. “A Editora Aruanda tem um selo voltado para trabalhos acadêmicos (Fundamentos de Axé), e foi uma de suas publicações que recebeu o primeiro Prêmio Jabuti Acadêmico em 2024 na Categoria Ciências da Religião/Teologia”, explica o autor.

A tese é resultado de uma acurada etnografia digital que identifica elementos da teologia da prosperidade e da teologia coaching (ambas mais conhecidas no neopentecostalismo) na Umbanda. “Cursos na internet, memes, Marcha para Exu: são vários os fenômenos comunicacionais apontados e estudados”, segundo Dermes, que em novembro passado iniciou um pós-doutorado em Comunicação que parte da tese, mas mergulha em outras questões desafiadoras já desenvolvidas pelo grupo de pesquisa na UNIP. Trabalho orientado pelo Prof. Dr. Maurício Ribeiro da Silva (UNIP), que assina o prefácio, o livro, tem ainda, apresentação do Prof. Dr. Hertez Wendell de Camargo (UFPR) e posfácio da Profa. Dra. Malena Segura Contrera (UNIP).

Autor de diversos livros (alguns premiados e com traduções para diversos idiomas), Doutor em Comunicação pela UNIP, Mestre em Literatura Brasileira pela USP, onde também se graduou em Letras, Pai Dermes é Doutor honoris Causa pelo MCNG-IEG (2018) e pela FEBACLA (2019) e Pós-graduado em Ciências da Religião pelo Instituto Prominas. Desde 2019 é patrono e titular da cadeira 62 da Academia Independente de Letras (sede em Pernambuco), com a divisa “Axé”. Em Piracicaba idealizou e coordenou inúmeros projetos culturais e o Fórum Municipal das Religiões de Terreiro (2011-2014) e produziu curtas-metragens com temática dos Orixás. Em 2014 presidiu o Fórum Europeu de Umbanda, em Leiria, Portugal, e em 2015 foi o vice-presidente do Fórum Catarinense de Umbanda, em Blumenau. É dirigente da T. U. Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas, aberta em 2015, e Ogã há 24 anos do Ile Iya Tunde (hoje sediado em Embu das Artes – SP). Em 2025 foi um dos 80 selecionados de um universo de 120.000 inscritos para o Santander Top España na Universidad de Salamanca.

 

Tarde de autógrafos de “FOI EXU QUE ME DEU”: Exu Coach e a Teologia da Prosperidade na Umbanda

Data: 29 de março de 2026

Horário: 15h

Local: Livraria Martins Fontes Paulista – Av. Paulista, 509 (térreo) – São Paulo – SP

Afonso Borges destaca o livro “Princípio Constitucional da Solidariedade”, obra da ministra do STF. Cármen Lúcia, publicada pela Editora Fórum.

O Mondolivro de hoje fala de uma leitura que me tocou de um jeito raro e especial.

Um livro que não deveria estar apenas nas estantes do Direito, mas na cabeceira de quem acredita na força da palavra e do humano.

Falo de Princípio Constitucional da Solidariedade, da minstra do STF, Cármen Lúcia, publicado pela Editora Fórum.

Cármen Lúcia escreve como quem fala baixo, mas firme. Não impõe conceitos – constrói sentidos. Sua escrita tem algo de confissão e algo de compromisso. A gente sente que cada frase nasce de uma responsabilidade profunda com o outro.

A solidariedade, aqui, não é tese. É uma visão de mundo. É a ideia de que ninguém se sustenta sozinho — nem o Direito, nem a democracia, nem a vida.

Ao ler, tive a sensação de estar diante de alguém que acredita, de verdade, que as palavras ainda podem organizar o mundo. Que escrever bem é um ato ético. E que pensar o coletivo é uma forma de afeto.

Esse livro me lembrou que há autores que não escrevem para vencer debates, mas para não perder pessoas. Para mim, o “Princípio Constitucional da Solidariedade” é, além de literatura da mais alta qualidade, uma forma de diálogo.

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“A amante”, por Sandra Godinho

Anay ouviu o vento balançar as árvores sem notar que também bambeava. Não esperou a terra esfriar do calor, agachou-se, estendendo o corpo rente ao chão, e encostou a cabeça na terra sem se importar com o olhar do marido que se embalava na rede da varanda do pequeno casebre sem nunca a perder de vista.

Anay aspirou, das profundezas do solo, uns bafos quentes e úmidos que traziam os sons das feras da noite, expondo o receio de que a quietude da mata trouxesse para perto de si um mundo de horrores. O marido se irritou:

− Deu para dormir na pele da terra agora, Anay?

− Compadre disse que tem onça rondando a aldeia.

− Onça sempre teve.

− Matam, comem, vão dormir com a barriga cheia e sem culpa. Vamos embora daqui, Romualdo, vamos para a cidade!

− Se aquiete, mulher, vá tratar de dormir.

− É a floresta que iguala todos aos animais. Eu te peço: vamos embora!

− Vá você, se quiser.

Ela queria, mas para escapar de um lugar era preciso escapar de si, ser outra sendo a mesma, e disso Anay não era capaz. Ela regressava ao leito à noite, vagando entre o sono e a vigília com medo de se perder num lugar onde, havia tempos, não chegavam estradas, notícias ou estranhos. Rezava para achar uma terra em que pudesse plantar sementes. Sementes, ela mesma não teve. Seu único filho nasceu morto, sem coragem para enfrentar o mundo que iria se abrir. Após o parto, a mulher rasgou uma boca na terra para que esta engolisse seu rebento e, agora, o solo secava sem ela gestar outro. A natureza tinha um mando silencioso, que dispensava palavra.

Ela se guardava assim, esperando que a terra ou algum bicho a engolisse. Acordava antes do nascer do sol, colhia a lenha para acender o fogão, buscava água, acendia o fogo, coava o café, cortava ripas de madeira para curar as feridas abertas nas paredes, protegendo-se das feras que andavam com a liberdade displicente dos seres da floresta. Seu marido cuidava da criação logo no início da manhã: um cachorro, um cavalo, uma serpente de estimação e um porco. Alimentava-os bem e, depois, passava o dia pescando com os amigos no meio do rio. A ausência de Romualdo enchia Anay de sombras. A mulher perdia o apetite, o sono, o peso, perdia até mesmo o pensamento, que flanava longe, transbordando de insensatez.

Um dia, o marido de Anay chegou, calcou o pé na varanda com tanta força que as paredes tremelicaram, fazendo o baque surdo ribombar pelos cantos.

− Me contaram que você esteve conversando com o compadre!

− Fui ver se ele me emprestava a arma.

− E o que você vai fazer com uma arma? Matar algum bicho ou se matar? Quer virar bicho você também?

− Há muito já sou bicho.

− Bicho, não. Louca, talvez.

− Não sou louca, mas posso acabar ficando.

− Pois de agora em diante, você fica em casa. Lugar de bicho é na jaula.

O rosto de Anay ardeu, as pernas formigaram, os braços adormeceram. Brigava com seu inferno interior, regido por leis que nem Deus podia explicar. Se não rompia as amarras era por medo de não conseguir atravessar o rio, tão infinito quanto o pensamento.

À noite, depois de ouvir as entranhas da terra, recostou-se no leito. O marido, ao seu lado, ressoava como um motor de popa. Anay se sentiu fluir, vagando pela floresta sob o manto da noite que descia sobre a aldeia e a cobria de estrelas. O vento balançou os galhos retorcidos das árvores, as nuvens se rasgaram no céu, a chuva umedeceu a terra e o cheiro ácido do bicho se aproximou.

Seu pelo estava molhado, e ele começou a lambê-la. Primeiro, molhou com sutileza suas mãos, pendendo do lado de fora da rede, depois subiu em seu corpo e passou a língua por suas curvas com avidez. Isso a encheu de prazer. Ela se despiu para que o animal a devorasse com a gentileza de um estranho. Depois do ato amoroso, ela adormeceu na mais completa paz. Acordou na manhã seguinte com o cachorro ao seu lado na rede, também dormindo. Surpreendeu-se, envolta em suor, um tanto gosmenta e malcheirosa. Resolveu banhar-se no rio, antes que o marido acordasse. Perturbou-se. Se antes permanecia imobilizada pelo temor, agora se imobilizava pelo prazer, à mercê do instinto animal. Passou o dia guardada em segredos, a pensar no que lhe tinha sucedido à noite.

O dia se desfez e logo a noite caiu. Anay, longe de temer o sono, passou a desejá-lo. Estou louca, pensou. Fechou os olhos, respirou fundo, sorvendo o ar que a envolvia e se preparou nas dobras da rede. Não conseguiu dormir. Foi até a varanda e se deitou no chão, encostando o ouvido à terra, quando um cheiro acre de bicho a envolveu. Ela se despiu, fechou os olhos e se entregou às carícias. O animal a cavalgou, descendo os vales, subindo as montanhas de seu corpo contorcido de prazer, não mais dona de sua vontade. Na manhã seguinte, acordou nua na varanda com o cavalo ao seu lado. Quis gritar, num pretenso asco, mas pensou no prazer sentido, então se dirigiu para o rio, sem esperar que o marido despertasse.

O dia custou a passar. O homem, depois de cuidar dos animais, saiu para a pesca sem lhe reparar a estranheza, nem o ar ensandecido. Ela falava agora outro idioma, suava e gemia pelos cantos esperando a noite cair para galopar territórios desconhecidos.

Seu marido chegou no final da tarde, com os peixes presos a uma vara e outros tantos em um samburá. Ela moqueou todos eles, transbordando de excitação diante do firmamento já pontuado de estrelas. Mal a noite caiu, o marido desmaiou na cama. Anay despiu-se. Aconchegou-se à rede e esperou pelo cheiro selvagem. Quando lhe chegou às narinas, ela transbordou em alegria de puro apetite animal.

Uma serpente aconchegou-se ao seu corpo, deslizando pelo pescoço, descendo pelo colo até postar-se próxima do sexo úmido, pronto para ser penetrado. Ela desfaleceu de prazer. Na manhã seguinte, a cobra jazia a seu lado. Ela se dirigiu novamente ao rio, passou a mão pelo seio desnudo, pela barriga macia, pelo pescoço que engrandecia. De um modo estranho, sentiu a pele espessa, os pelos grossos e com um cheiro tão intenso quanto o dos bichos, sem deitar maiores preocupações.

Só o que tinha a fazer era esperar a noite dominar. Não gostava de ver o sol ostentar opulência, expulsando as estrelas, assumindo-se soberano. Era a noite que trazia o encanto. Com ela, todos podiam reinar. Esperou a noite definhar o brilho do sol, aprumou-se na rede, enquanto o marido se retorcia no quarto. Desta vez, ele custou a dormir, ameaçando apropriar-se do que era dela por natureza, tomar seu corpo a pulso. No escuro, Anay pensava na visitante da noite quando o cheiro ácido lhe atingiu as narinas. O marido reparou que a mulher se despia, então levantou-se da cama e a abraçou por trás. Queria a mulher rendida, entregue às suas carícias. Anay começou a se sacudir e caiu ao chão, apoiada em suas mãos e pés. Soltou um gemido, uma espécie de esturro, tão forte que calou os demais ruídos vindos da mata. O homem surpreendeu-se com a desfeita e quis chutar-lhe a barriga.

No dia seguinte, o compadre de Anay apareceu no casebre e se apavorou. Na varanda, caído diante da entrada, um porco imenso jazia com a garganta rasgada. Provavelmente, um trabalho de onça, cujas pegadas, envoltas em sangue, permaneciam frescas na varanda. Nenhum outro corpo foi achado. O que chamou a atenção foi um silêncio anormal, como se tudo estivesse em paz.

 

 

Sandra Godinho, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, mora há 23 anos em Manaus; é graduada e Mestre em Letras e tem 14 livros publicados. Orelha Lavada, Infância Roubada (contos – 2018) recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas em 2019; O Verso do Reverso (contos) ganhou o Prêmio Cidade de Manaus  em 2019; Tocaia do Norte (romance) recebeu Prêmio Cidade de Manaus em 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021; A Morte é a promessa de algum fim (romance) recebeu o Prêmio Cidade de Manaus em 2021; Memórias de uma mulher Morta (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2021; A Secura dos Ossos (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2022. Nós, cegos (contos) foi vencedor do 1º Prêmio Carolina de Jesus em 2023 e ganhou o PNAB 2024. O Negro secou (contos) recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Manaus em 2024. Paralelo 11(romance) foi finalista no Prêmio Leya 2024. Tocaia do Norte ganhou ainda o Prêmio da BN em 2023 e está sendo traduzido para o Inglês e A Secura dos Ossos ganhou o Prêmio da BN em 2024 e está sendo traduzido para o Português moçambicano.