“A revolução da dignidade”, por Youssef Bouguerra

Os policiais agarraram-no com força e o atiraram na caminhonete. Na delegacia, só foi solto depois de assinar uma declaração de que não voltaria a vender mercadorias no camelódromo. Não tinha a autorização necessária. Dias antes, no frio intenso daquele inverno, diante do filho faminto e da mulher impotente, decidira arriscar-se no comércio.

Voltou para casa caminhando lentamente. O filho pequeno o casamento a graduação em ciências políticas a busca por trabalho o desemprego sua mãe seu pai o presidente quando era criança a dor na canela ainda bem que não quebrou o que deus está fazendo…

Se tivessem televisão, teriam assistido ao discurso cotidiano do presidente Bento. Naquele dia, vangloriava-se de uma visita feita a uma escola no interior.

— Nosso compromisso é com a educação. As gerações vindouras nos agradecerão por nossas ações generosas. Nossos filhos e nossos netos terão vidas prósperas.

Antes de deitar-se, saiu para o quintal para assegurar-se de que ainda havia álcool para o fogareiro.

 

* * *

 

No camelódromo, muito movimentado pela manhã, a cena da véspera repetiu-se. Ele não deveria estar lá, mas queria recuperar parte da mercadoria que tinha exposto no chão, sobre um farrapo que deus sabe onde havia encontrado. Não achou os brinquedos velhos. Ao longe, os berros de um vendedor autorizado:

— Olha a bolsa, olha o cachecol! É pra espantar o frio, freguesa! Tem luva de lã, touca com pompom e meia-calça térmica! Três por dez, vem escolher que tá acabando!

Dirigiu-se então ao Palácio do Comércio. Vez ou outra, dava um pequeno tapa no bolso. Chegando ao destino, tirou o frasco que carregava consigo e fez o que tinha de fazer. Alguns passantes, chocados, registraram o momento.

 

* * *

 

No hospital, Marta estava sentada com o filho no colo, prostrada no meio do vaivém de médicos, enfermeiros e pacientes, quando recebeu a ligação do primo. Quando o médico chamou, desligou. As notícias não eram boas.

Passou os dez dias seguintes hospedada na casa do primo, indo diariamente ao hospital na esperança de uma melhora. Ele parecia atarefado durante o dia, fazendo telefonemas seguidos. À noite, Marta buscava afastar a dor diante da televisão.

— Ah, não! Bento, não!

— Vou botar no outro canal.

Os registros do momento fatídico tinham chegado à emissora estrangeira.

— Desliga. Não posso ver isso…

No décimo dia, veio a notícia.

 

* * *

 

Marta nunca tinha visto toda a família reunida assim. Tios, tias, cunhados e outros parentes de todas as idades e condições, próximos e distantes, aglomeraram-se na rua do primo e saíram rumo ao centro da cidade. “Fora Bento”, dizia um cartaz. Outro ecoava: “Nunca mais!” Os vizinhos juntaram-se à procissão. À medida que avançava, o grupo se tornava cada vez maior. Pararam diante do Palácio do Comércio quando a polícia chegou.

As imagens do protesto foram transmitidas pela emissora estrangeira, enquanto o presidente continuava a discursar no canal oficial.

 

* * *

 

Os protestos diários espalharam-se por todo o país. Soldados armados até os dentes foram intimados a fazer o trabalho no lugar dos policiais. Estavam nas cidades e no campo. Em meio à violência, milhares foram presos. Por trás do olhar frio dos militares, percebia-se um fio de compaixão.

Enquanto a emissora estrangeira cobria os acontecimentos, o discurso de Bento no canal oficial começava a mudar.

— Nosso governo tem compromisso com vocês. Entendemos suas preocupações. Fiquem tranquilos: vão colher os frutos de nosso trabalho. A economia já está dando sinais de melhora.

— Onde vai parar isso?

 

* * *

 

Houve mudanças profundas no país nos anos que se seguiram à fuga de Bento para o exterior. O filho de Marta crescera resolvido a honrar a memória do pai — ela mesma cuidara disso, contando-lhe, noite após noite, o que restava dele: um frasco, um gesto, um país.

Marta continuava hospedada na casa do primo. De dia, trabalhava no camelódromo, onde ainda se ouviam os pregões dos vendedores autorizados. À noite, espantava-se ao escutar, na televisão, críticas abertas ao governo provisório, e perguntava-se se veria, um dia, outra revolução: aquela que mudaria também o preço do pão.

 


Youssef Bouguerra nasceu na Tunísia, vive no Brasil e já morou em diferentes países e cidades ao longo da vida. Sua escrita transita entre autobiografia, errância e ficção existencial, explorando temas como identidade fragmentada, pertencimento e deslocamento cultural.


 

75° ciclo de estudos Técnicas de Oratória com Dr. João Meireles Câmara

O Ciclo de Estudos contará com a presença de Sueli Carlos, sócia da UBE.


Início 1° de agosto de 2026, das 10h às 12h30
Datas: 1°, 8, 15, 22 e 29 de agosto, 12, 19 e 26 de setembro de 2026 (sábados)

 

Programação:
– falar pensando e pensar falando;
– ⁠História da Oratória
– ⁠Postura
– ⁠Voz
– ⁠Gestos
– ⁠Vencer o medo de falar ao público

Local:
Auditório da Escola de Formação Profissional Orlando Laviero Ferraiuolo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial -SENAI
Endereço: Rua Padre Antônio de Sá 333 – Metrô Tatuapé
100% Presencial

Orientadores: Dr. João M Meireles Câmara, Sueli Carlos e Humberto Emiliano

Colaboradores: Selma Ramos de Oliveira Carvalho, Gouveia de Hélias e Lígia Peixoto Figueira.

Inscrições:
WhatsApp: 11 93727-0109
E-mail: comissaomutiraocultural@gmail.com

Emissão de Certificado ao final do curso
Investimento: Gratuito

“edifícios guardados”, por Adenildo Lima

 

a música toca suave nos labirintos
transmitindo uma paz e uma harmonia
capaz de transformar o mundo
esperançoso
o menino olha o tempo e brinca
mas parece que tem medo de alguma coisa
a música acompanha cada momento

 

uma lágrima cai no chão de concreto
o cachorro lambe a face do seu dono
dele sai um amor tão sincero

 

o menino sente inveja do cão
e observa o tempo

 

os faróis se abrem se fecham
a cidade parece um mar com ondas fortes

 

o menino observa cada cena

 

a cidade parece um dragão cuspindo fogo
algumas pessoas se assustam
outras parecem que já se acostumaram

 

a música
sente-se invadida pelas buzinas dos carros

 

a metrópole está pequena
os prédios estão alto demais
o campo transformou-se numa floresta de concreto
e as pessoas procuram a paz deixada em algum lugar

 

a cidade parece o mar com ondas fortes
música já não há mais
harmonia também não
parece que só o amor do cão caminha nas calçadas
contrastando com o dragão cuspindo fogo

 


Adenildo Lima é natural de Colônia Leopoldina (AL) e vive em São Paulo desde 1998. Com uma escrita que trata dos dilemas sociais, considera que seus livros, tanto em verso como em prosa, descrevem uma época pós-moderna. Em 2025, foi indicado ao Prêmio Intelectual do Ano, organizado pela UBE, da qual é sócio filiado e, em 2017, se candidatou a uma cadeira na ABL. Agora em 2026, está
trabalhando uma nova edição do seu romance, Maria, pela Akuanduba Editorial, e tem lançamento previsto para este ano de um livro de poemas, pela Laranja Original. E na caminhada literária, já ganhou e foi finalista e semifinalista em diversos prêmios. Atualmente, além de se dedicar à literatura, leciona no Senac.

E-mail: adenildolima@gmail.com
Instagram: www.instagram.com/adenildolima.oficial/


 

Escritora Heloísa Prazeres lança novo livro de poemas na ALB.

A Academia de Letras da Bahia (ALB) realiza, no dia 26 de maio (terça-feira), às 17h, o lançamento de ‘Jardim sobre mesa de vidro’ (Editora P55), da Acadêmica Heloísa Prazeres.

O evento faz parte do projeto Livros na Mesa e é aberto ao público.

Autora de mais de uma dezena de títulos de poesia, Heloísa Prazeres integra a literatura baiana contemporânea como poeta e ensaísta. De acordo com o escritor Aleilton Fonseca, presidente da ALB, neste novo livro, “a poeta passeia com desenvoltura pela técnica do verso branco, o metro livre, convocando o ritmo de modo a balancear as estruturas entre as lições da tradição e as conquistas da contemporaneidade.”

Para a também Acadêmica Edilene Dias Matos, em ‘Jardim sobre mesa de vidro’, o corpo poético é solicitado para construir a estética das cenas. “…a reação do corpo vem de onde sai a palavra marcada por uma arquitetura erotizada e significante. O fogo de artifícios de cada sílaba faz, nesse conjunto de poemas, o texto tomar corpo e ecoar na memória sensível do leitor”, ressalta a confreira.

Já o premiado poeta, ensaísta, tradutor e professor gaúcho Pedro Gonzaga define a obra como “um trabalho íntimo, quase um brocado, de intensa sensibilidade sonora e imagética, uma prova do vigor criativo de uma poeta madura, que domina à maestria seu ofício, mas que nunca deixa de contemplar a juventude do mistério da verdadeira criação”.

A ALB conta com apoio financeiro do Governo da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia, e da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba).

74° ciclo de estudos Técnicas de Oratória.

Sueli Carlos, sócia da UBE, ministrará aulas de oratória ao lado de outros especialistas no assunto. Segue abaixo mais informações sobre o 74° ciclo de estudos Técnicas de Oratória:

 

Início: 9 de maio de 2026, sábado, das 10h às 12h30

O curso será ministrado nas seguintes datas: 9, 16, 23 e 30 de maio; 13, 20 e 27 de junho; e, 4 de julho de 2026.

 

Programação:

• Vencer o medo de falar ao público;

• Falar pensando e pensar falando;

• História da Oratória;

• Postura;

• Voz;

• Gestos.

 

Orientadores: Dr. João Meireles Câmara, Sueli Carlos, Humberto Emiliano

Colaboradores: Selma Ramos de Oliveira Carvalho, Gouveia de Hélias, Lígia Peixoto Figueira

Modalidade: Presencial

Local: Auditório – Escola de Formação Profissional Orlando Laviero Ferraiuolo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI.

Endereço: Rua Padre Antônio de Sá 333 – Próximo à estação Tatuapé do Metrô.

Emissão de Certificado ao final do curso | Custo: Gratuito

 

Inscrições: Através do WhatsApp (11) 93727-0109 ou por e-mail: comissaomutiraocultural@gmail.com

Nota de falecimento – Marina Marino, escritora, professora, editora, ativista e livreira.

 

A União Brasileira de Escritores (UBE) manifesta seu profundo pesar pelo falecimento da escritora Marina Marino, diretora da entidade, ocorrido nesta segunda-feira, dia 27 de abril de 2026, em São Paulo, aos 68 anos.

Marina era pedagoga de formação, onde teve uma sólida carreira como professora. No mundo dos livros, a escritora publicou livros de diversos gêneros, entre adultos e infantis, entre eles, “O mágico que veio de longe” e “Tudo foi vivido – O feminino sobre a terra”.

Em agosto de 2022, criou a “Voo Livre – Revista Literária”, nela ocupava o cargo de editora-chefe. Filiou-se na UBE em 2023, onde atuava na diretoria da entidade. E, em junho de 2024, fundou o “Coletivo Mulherio das Letras São Paulo”, onde seguia em atividade.

O velório será na Funeral Velar Morumbi (Av. Giovanni Gronchi, 1358 – São Paulo, SP), hoje, dia 27 de abril, das 18h às 22h.

Aos familiares, amigos e leitores, os nossos mais sinceros sentimentos.

União Brasileira de Escritores.

Flávio Ulhoa Coelho lança seu novo livro “Nicolas Bourbaki e a Gênese da Matemática na USP”.

Editado pela EDUSP, sócio da UBE, o professor Flávio Ulhoa Coelho realiza evento de lançamento nesta quarta-feira, dia 29 de abril, às 17h.

 

 

No dia 29 de abril, o professor Flávio Ulhoa Coelho, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), lançará seu livro “Nicolas Bourbaki e a Gênese da Matemática na USP”. A obra conta a história do grupo Bourbaki e sua influência no desenvolvimento da matemática do século XX, que chega até a USP quando alguns de seus membros passam a lecionar no curso de matemática da universidade após a Segunda Guerra Mundial.

Matemático fictício, Nicolas Bourbaki foi criado para nomear um grupo francês de estudiosos da área, cujas primeiras reuniões aconteceram em Paris em 1934, mesmo ano da fundação da Universidade de São Paulo. No livro, Flávio Ulhoa Coelho conta a história da formação do curso de matemática da USP, abordando a colaboração inicial dos professores italianos e focando na contribuição de Nicolas Bourbaki. O grupo Bourbaki, formado por seis matemáticos franceses, ainda é ativo, e seu legado na USP é de grande importância, como nos indica a leitura do. O autor nos mostra que, mais do que um mero pseudônimo, a herança do grupo para o campo da matemática foi um heterônimo com visão acadêmica e estilo próprios.

 

 

Serviço:

Lançamento do livro “Nicolas Bourbaki e a Gênese da Matemática na USP”, de Flávio Ulhoa Coelho

Data: 29 de abril de 2026 – quarta-feira

– 17h: Sala Villa-Lobos: conversa do autor com Claudio Possani

– 18h: Livraria João Alexandre Barbosa: sessão de autógrafos.

Local: Biblioteca Brasiliana

Endereço: Rua da Biblioteca, 21 – Cidade Universitária, São Paulo

“FILMAGENS”, por Renato Moura

Às vezes sou leve, às vezes pesado como as paredes que me circundam. Eu e elas nos entendemos. Gosto de lhes contar minhas mazelas, de infernizá-las com perguntas e assim agitar seus átomos preguiçosos. E elas me respondem, avançando contra mim. Nas horas lentas, derramadas por um antigo carrilhão feito em madeira de lei, três delas avançam, e um quadro se aproxima, meus ouvidos entregues à música barroca. O quadro é uma reprodução de certa obra renascentista que traz em primeiro plano uma mulher seminua. A mulher não me vê, seu olhar perdido me ignora. Mesmo assim, vou entrar no quadro.

Entro. Nele vou descobrir de onde vem a magia que me encanta. Pode vir da deusa, da musa, da amante, da amiga, enfim, de quem meus devaneios quiserem que essa mulher seja. Estamos num campo, as flores sorriem, nos observam e sentem nossos cheiros. Corremos descalços ao sabor da brisa fresca e nos abraçamos sob o sol da primavera. Depois, fazemos amor embalados pela lira de Eros. O campo não tem paredes, não tem fronteiras. Alegres e exaustos, montamos um corcel branco e fogoso que logo se põe a galopar e quase não responde aos nossos comandos.

A mulher do quadro… Minha primeira filmagem. No campo florido não há impedimentos para nós. Fujo da realidade? Ou quero fazer da realidade um campo florido? Saio, então, do quadro e de casa.

A cidade parece se esconder do dia enquanto deambulo pela avenida que separa o mar dos prédios. Em sentido contrário, um vendedor de pipocas vem vindo. Empurra a carrocinha devagar, tão devagar que paro ao lado dele e peço um saco médio. Depois, pago e me afasto, sem esperar pelo troco. Eu e o vendedor somos mundos estranhos postos em contato na vastidão do domingo. Ele vende pipocas para não ter que vender a alma ao diabo; eu ando a esmo para que o diabo não queira comprar a minha. Fora do quadro, continuo a filmar o que vejo. À minha frente, um cobertor rasgado serve de abrigo a dois garotos franzinos. Um deles o puxa de cá, o outro de lá, se estranham, quase brigam. Quando lhes dou algumas moedas, sorriem, interrompem a disputa encarniçada e reviram os olhos vermelhos de crack. Valeu, tio – dizem.

Chego à praça, o sino da igreja toca e algumas pessoas entram. Parecem afobadas, mas, sem nenhuma afobação, um bêbado se aproxima da porta principal. Percebo seu avançado estado etílico pelo andar torto e adivinho o que vai fazer. Sem me notar, ele entra no templo como se entrasse no lar que não tem. Será que algum fiel fará o obséquio de devolvê-lo à rua? Não espero para filmar.

Passo agora em frente à portaria de um grande edifício e vejo duas meninas imersas num beijo novelesco. Devem ter cerca de vinte anos, talvez até um pouco menos. Há quantos minutos estão assim e por quantos mais ficarão? O mundo dos enamorados gira no mesmo ritmo da minha caminhada sem rumo. Gira mesmo? Por vezes acho que não e até duvido que o planeta gire. Mas certo Jean Léon Foucault e seu pêndulo disseram que gira.

As meninas imersas no beijo, o bêbado afogado em pinga, os garotos que ainda devem estar brigando pelo cobertor e o vendedor de pipocas não poderão ver a lua em sua exuberância crescente. Eu também não. A chuva não quer que a vejamos, talvez por ciúme. Uma pena.

Sigo sem pressa, filmando a cidade com o olhar. Não fiz um roteiro, capto imagens e no meu filme a história surge do que me causa sensações variadas, misturas imprecisas de desalento e ânimo.

No domingo que finda começo a sentir a chuva na pele. Antes, ela parecia não me molhar, como se fosse de uma secura ímpar. Agora já não é mais. Meus braços estão salpicados de gotas que brilham como pequenos diamantes. Gosto da imagem, por isso a filmo.

A noite chega e por fim ou por início chego a casa, onde tudo promete se repetir. Ou não. Olho para a mulher que no quadro balança os longos cabelos cor de mel. Seu olhar, antes pousado num ponto qualquer do nada, já não me ignora. Sinto que a deusa, a musa, a amante e a amiga vão sair da moldura. A vida lá fora existe e elas também a querem filmar.

 

(publicado na Antologia do Prêmio VIP de Literatura – edição 2022 – AR Publishers Editora)

 


Nascido em 1958, é natural de Niterói (RJ), Dr. em Educação, Prof. Titular aposentado da UFRJ e membro da APPERJ. Como Renato Massari, publicou os romances “Similitudes” (2022) e “Barca das Lembranças (2021) – este agraciado com o Prêmio Planeta Litterae (Editora Planeta Azul). Em 2025, já como Renato Moura, obteve o quarto lugar no Prêmio Nacional Poiesis de Literatura, com o microconto “Ser”, e Menção Honrosa no Concurso Primavera Eterna (Editora Typus) com o conto “Tatuagens”. Tem ainda poesias e contos publicados em revistas virtuais e antologias.

@renatomassari.oliveira


Entre a dor e a lucidez

O retrato visceral das mazelas mentais em Sinthoma, de Victor Leandro.

A Editora Temiporã lançou, neste ano, Sinthoma, romance do autor manauara Victor Leandro. O escritor vem consolidando seu nome no cenário literário regional ao explorar, com profundidade, as tensões sociais e políticas que marcam a região Norte. Em 2025, com a publicação da novela Rio das Cinzas, Leandro já havia revelado o impacto severo da crise climática e a negligência do Estado diante das vulnerabilidades da população local.

Em Sinthoma, o foco se desloca para um debate urgente e crescente: a saúde mental. À medida que os transtornos psiquiátricos se tornam mais visíveis na sociedade contemporânea, surge a inquietação: como as instituições e o poder público realmente lidam com essas pessoas? O livro não oferece uma resposta simplista, mas sim um convite contundente à reflexão.

A narrativa acompanha o Dr. Hermes durante o último plantão de um hospital psiquiátrico em Manaus, às vésperas de sua desativação. Ao cruzar os portões, o médico encontra um ambiente inóspito e pacientes submetidos a um estado de total desamparo. O impacto das histórias de abandono e exclusão social que encontra ali levanta uma questão central: para onde essas pessoas serão levadas?

A trama ganha contornos mais complexos com a Dra. Ana, uma figura enigmática que convida Hermes a percorrer uma noite marcada por revelações. Mais do que o hospital, o autor desvela uma cidade também sintomática, que agoniza sob o abandono estatal. Com uma linguagem fluida, Victor Leandro conduz o leitor por uma jornada tensa e necessária. Sinthoma é uma obra fundamental que reacende debates adormecidos, mas que, silenciosamente, corroem o tecido da nossa sociedade. Deve ser lido.

Sobre o autor:

Victor Leandro é ensaísta e autor de ficção. Em 2011, recebeu o prêmio nacional Luiz Ruas, destinado ao melhor ensaio sobre literatura, pelo trabalho intitulado O Norte Impossível – Ficção, Memória e Identidade em Narrativas de Milton Hatoum. Publicou as obras O Artista do Fracasso, Estocolmo, Degredo, Rio das Cinzas, dentre outras. Em 2024, recebeu menção honrosa no concurso internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, pelo romance O Fantasma e a Travessia. É professor de filosofia na Universidade do Estado do Amazonas.

Contatos:
viktorleandro@hotmail.com
@silvavictorleandro