“Pneumotórax”, por Maria Teresa Fornaciari

“A perspectiva à minha frente é muito sombria. Meu País está em grandes Apuros e tem muito pouca Base para a Esperança. O Corpo do Povo parece esgotado pela luta e a Venalidade, o Servilismo e a Prostituição comem e se espalham como um câncer.”

O excerto, citado por Susan Sontag, parece diagnosticar com veracidade o sentimento de quem vive neste tempo, neste espaço. O depoimento acima, que fala do que lemos em nossos jornais de hoje, é de 1772: um trecho de diário de John Adams, diplomata e segundo presidente dos Estados Unidos.

A Vida segue e se encaixa naquela moldura de palavras do estadista: os Apuros traduzem nossa angústia em consequência da falta de harmonia que vai sufocando o pulmão, exausto de tanto pneumotórax. Com tal procedimento, o ar é insuflado no espaço pleural para colapsar parte do  órgão doente, mas esse espaço vai se fechando e descartando a vida, amortalhando a Esperança.

“Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.

A vida inteira que poderia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.”

Os versos antológicos de Manuel Bandeira registram com fidelidade a angústia da falta de ar, da dificuldade de respirar não só do corpo, mas também do espírito. Se o poeta tratava da tuberculose no século XIX, a frustração, a depressão, ou a melancolia desprovida de seus encantos, vai ao encontro do câncer como enigma mal resolvido no século XX, doença provocada por constante repressão do sentimento; o que irrita, corrói, consome lentamente e em segredo.

A doença é sempre metáfora do desequilíbrio indivíduo/sociedade, pontuou Susan Sontag. Depois da tuberculose, o câncer, a aids e, já neste século, a covid, a depressão e o Alzheimer. O viver é carimbado com a nódoa da carência e a saúde vulgariza-se. As fantasias modernas se concentraram e tornaram o isolamento status quo, exílio,  como se as doenças fossem sinais do mal e, ao mesmo tempo, oportunidades de redenção.

Venalidade e Servilismo de que trata John Adams invadem nossas preocupações como cânceres invasivos e somos destruídos inexoravelmente, pois cura já não há para um Corpo extenuado de dor diante de tanta guerra, de tanta desumanidade. O mundo torna-se uma nódoa que reflete pessoas idênticas, como se tivessem sido programadas pelo progresso e pela verdade e, se não existissem, poderiam ser construídas, deixando de lado seu senso crítico e seus olhos de lince. A Prostituição se instala na Política e o mundo sem as metáforas da doença tornam-se fantasias direitistas, que agridem também a natureza.

As pessoas duram mais, envelhecem e se perturbam com a desordem, com a estagnação do fluxo de energia vital. Segundo Menninger, “a doença é em parte aquilo que o mundo fez a uma vítima, mas, na maior parte, é aquilo que a vítima fez ao seu mundo e a se mesma.”

“Então, doutor, não é possível tentar o Pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

 


Maria Teresa Hellmeister Fornaciari nasceu em São Paulo em 1954. Mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP, escreveu Tambores e Violinos (poesia), Encontros e Des-Encontros, Avesso Sentido e Coisas que não importam (contos), além de Atchim (literatura infantil). Frequentou oficinas de escrita, recebeu prêmios em vários concursos literários e, também, a indicação para o Jabuti, em 2016, de seu livro de contos Avesso Sentido. Com Dora, lançado no início de 2026, abriu uma nova vertente em sua carreira literária: o romance de formação.


 

76º ciclo de estudos: Técnicas de Oratória

Com oito encontros presenciais, o curso acontece de outubro a dezembro.

 

Começa neste sábado o 76º ciclo de estudos em Técnicas de Oratória promovido pela fonoaudióloga, escritora e sócia da UBE, Sueli Carlos, em parceria com a AFEAL – Associação Nacional dos Fabricantes de Esquadrias de Alumínio. Confira abaixo mais informações de como participar:

Início: dia da 17 de outubro de 2026

Horário: das 10:00 horas às 12:30 horas (sábados)

Dias: 17-24-31 de outubro; 07-14-28 de novembro; 05-12 de dezembro de 2026

Local: SENAI – Escola de Formação Profissional Orlando Laviero Ferraiuolo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – Auditório

Endereço: Rua Padre Antônio de Sá, 333 – Metrô Tatuapé

Programação:
– vencer o medo de falar ao público

– ⁠falar pensando e pensar falando

– ⁠história da Oratória

– ⁠postura, voz e gestos

 

Investimento: GRATUITO

Modelo: Presencial

Inscrições: WhatsApp 11 93727-0109 ou e-mail: comissaomutiraocultural@gmail.com

“A P O C A L I P S E A G O R A (ou L O G O M A I S) !”, por Orlando Sampaio Silva

Dada à sua atualidade, este artigo, escrito anos atrás, está sendo republicado com esta inicial forma  ficcional (mas com graves traços constatados na inquietante realidade!):

Êste é o mundo louco em que estamos vivendo, sendo seu extraordinário e estranho líder a figura farsesca do presidente norte-americano Trump – primeiro mandato –  (que vem acompanhado de títeres, que governam alguns outros países).

Daqui a desconheço se um, cinco, dez ou mais séculos, quando o terráqueos-lunáticos e os terráqueos-marcianos, em suas viagens espaciais, vierem visitar este pobre planeta rico dos seus antepassados, encontrarão as ruínas deixadas pela engenharia destes nossos dias: pedaços, restos arqueológicos, destroços, vestígios de arranha-céus, de pontes, de viadutos, de transatlânticos, de aviões, de trens, de torres, de grandes usinas hidroelétricas, de monumentos, as cidades costeiras inundadas em todo o Mundo… não muita coisa mais!

Talvez, uma civilização simiesca (como no Planeta dos Macacos) em formação, ou, mais provavelmente, seres unicelulares tentando dar início a um novo processo evolutivo de êxito pouco provável!!!…

Certamente, esses terráqueos marcianos e lunáticos enlouquecerão!…

Por enquanto, não enlouqueçamos! Mas, não é necessário ser schopenhaueriano para ser objetivamente realista em face dos fatos: o ser humano está acelerando a extinção da espécie e a vida sobre a face do planeta como um todo; por outro lado, o panorama político e social, no Mundo e neste sofrido país (períodos Bolsonaro e Trump), está forte e crescentemente engolfado nos obscurantismos e nas mediocridades, no anticientificismo, no negativismo, na intolerância, nos fanatismos, nos fundamentalismos, nos primarismos, nos casos de interdição (por deficiência mental, por retardo), flagelos que avançam sem controle e que são exterminadores de valores, culturas, etnias, sociedades, vidas.

Dá para perguntar: Até quando?…

No passado, foi possível superar a Idade Média, a época dos monarcas despóticos, a do colonialismo, a do nazismo, a do stalinismo… mas, agora, o fenômeno é de extensão mundial! Globalização do neoliberalismo!!! O reino planetário do mercado! É praticamente impossível um novo Renascimento e tudo que ele, com seus filósofos e artistas, anunciaram para o futuro da humanidade!

Estão ocorrendo os maiores incêndios da história nos Estados Unidos (costa Oeste) e no Brasil: Floresta Amazônica, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica, biomas únicos sobre a face da Terra, riquíssimos em suas floras, faunas e nas culturas humanas que eles ainda contêm.

Com os desmatamentos e os demais crimes cometidos contra o meio ambiente, em quase todo o Mundo, a temperatura no planeta está aumentando e, em consequência, efetivam-se degelos nas regiões polares e nas geleiras das cordilheiras. Esta destruição provoca a subida do nível dos mares e oceanos, que ameaça de inundações as áreas costeiras e baixas dos continentes, pondo em grave risco a sobrevivência de cidades e metrópoles aí localizadas em todo o Mundo. A derretimento (ou desgelo) de geleiras nas cordilheiras, que provocam imensas inundações e destruições de comunidades e cidades.  Os tufões, furacões, tornados tornam-se cada vez mais violentos e catastróficos. Cidades são destruídas e milhares de vidas humanas são sacrificadas. Por quê está ocorrendo o aumente do registro de terremotos nos diversos continentes, acompanhados ou não de tsunamis? O ponto de retorno do aquecimento global já foi ultrapassado! A preservação da vida sobre o globo terrestre corre grave risco.

Em breve, a África, esse oceano de fome e miséria, será apenas um único Saara; no Brasil, teremos o Saara Amazônia, o Saara Planalto Central, o Saara Sul, e, enfim, o Saara Nordeste, área pré desértica, o semiárido, onde já existe a efetivação de pequeno deserto!. A madeira das nossas matas será toda entregue ao mercado, e o capital internacional terá transformado o solo da Amazônia em grandes crateras na busca ávida de terras raras (como nos casos do manganês, da cassiterita e da bauxita), onde existia, antes, matas, morros, montanhas e grande variedade de vidas e de riquezas minerais e de rios caudalosos, que pertenciam ao patrimônio do povo brasileiro. Igarapés, riachos, rios secarão (notar as secas que têm ocorrido na Amazônia). Mesmo a soja, o milho  e a boiada, que hoje avançam por onde antes havia floresta, terão dificuldade para vicejar…

Acrescento:

Esta minha visão é escatológica? É, mas, ela está sendo desenhada pela realidade cruel que o planeta e a humanidade estão vivendo. Refiro-me, acima, ao Continente Africano, aos EE.UU. e ao Brasil. Mas, com o aquecimento dos mares e oceanos a que nosso planeta está condenado (notar o fenômeno agressivo do “el niño!), as cidades costeiras serão inundadas em toda a superfície da Terra, como nos casos de Nova York, Washington, São Francisco etc.; Lisboa e outras; talvez Amsterdam esteja à salvo em face de sua engenharia de barragens avançadíssima; no nosso país, inundações no Rio de Janeiro, em todas as capitais dos Estados do Nordeste, talvez, exceto Teresina, localizada no interior; Belém, Floripa, Santos etc. Que acontecerá com Manaus (até onde irá a inundação penetrando pelo rio Amazonas?)? Mas, Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia, Brasília, São Paulo e outras, no planalto, estarão a salvo da grande inundação!

Também, posso dar alguns depoimentos a partir de minha experiência profissional: Encontrei, no interior da floresta, em Roraima, ao lado do limite da Terra Yanomámi, uma serraria trabalhando a todo vapor madeiras ilegalmente obtidas e utilizando como mão de obra caboclos e índios; vi no lugar em que existiu a Serra do Navio, no Amapá, a inversão topográfica, com uma imensa cratera profunda, como se o grande morro (manganês) antes existente no local, oco, estivesse de cabeça para baixo encravada no solo; o manganês acabou e o morro, também; o mesmo ocorreu com a Serra Pelada, no Pará (ouro); vi os Xikrín torturados com a pressão da Vale para explorar minérios em sua Terra (PA); e Carlos Drummond de Andrade se referia, saudoso, melancólico e revoltado ao desaparecimento da serra de sua infância, em Itabira, que, fora eliminada da paisagem.

Também em Minas Gerais, situações semelhantes, como a morte do Rio Doce e de cidades e ribeirinhos, inclusive afetando aldeia dos índios Krenák; são centenas de vidas sacrificadas; ainda em Minas Gerais, dezenas de barragens de mineração estão na mesma situação de ameaça trágica; em Altamira, PA, além da hidroelétrica de Belo Monte e seu lago, que devastaram o Xingu e feriram fortemente as vidas de índios e ribeirinhos, às proximidades da cidade, a indústria da caça ao ouro destrói sistemas de das vidas societárias de caboclos e de grupos indígenas; no Vale do Rio Trombetas, PA, situação semelhante na busca da bauxita, etc., sendo estes empreendimentos capitalistas concretizados por empresas estrangeiras, que remetem seus lucros para o exterior, criam um mínimo de empregos e não investem em benefício da população. Essas ações e outras, como a destruição das florestas para que as “boiadas passem” e para que “trabalhem os que querem produzir” no corte   – sem fiscalização –   de árvores e, nas serrarias que funcionam irregularmente; na exportação ilegal ou não de madeiras de lei, e na garimpagem descontrolada, são, atualmente, tão incentivadas pelo governo que temos (Bolsonaro). A Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada pela ação privatista neoliberal de FHC. A busca primária de minérios, com a destruição de pequenos rios e igarapés, pelo uso de dragas e substâncias poluentes e com a agressão à vida de caboclos e indígenas (por exemplo, o caso dos Yanomámi, com milhares de mortes de indígenas), utiliza a mão de obra de míseros garimpeiros brasileiros, explorados pelos financiadores (aviadores) instalados nas cidades, no Brasil e no exterior.

Queimadas, as maiores já ocorridas em nossa história, que estão destruindo a flora e a fauna na Amazônia, no Pantanal, na Mata Atlântica e no cerrado, com vítimas humanas imediatas; a derrubada da floresta como projeto oficial para “passar a boiada”; idem, por trabalhadores semiescravos para abastecer as serrarias e para a exportação; a destruição dos rios, lagos e igarapés, da flora, da fauna, com afetações nas vidas das populações ribeirinhas caboclas e indígenas, pela prática criminosa da mineração e do garimpo, além das construções de grandes hidroelétricas e os acidentes previstos e criminosos de rompimentos de barragens (mineração), todos esses fatos concretos presentes no Brasil, são graves manifestações do “apocalipse” em curso.

Que fazer, brasileiros, humanidade?!

Dando um tom minimamente otimista ao texto, convém registrar que há cientistas especialistas nos estudos ecológicos, do meio ambiente, da natureza, que dizem que os fatos perturbadores que vêm ocorrendo em nosso planeta não significam o começo do fim. Não são sinais do início de um processo escatológico que implicaria, afinal, no fim da vida sobre a face da Terra. O estágio em que esses eventos se encontram exige, por um lado, que sejam implementadas medidas pelos Estados para sustar o agravamento da situação, e, por outro, que a Humanidade promova ações que visem a adaptação dos seres vivos às condições ambientais ora prevalecentes.

(Atualização em 01/09/2026)

 


O autor Orlando Sampaio Silva nasceu em Bragança, PA em 24/01/1932, é advogado (OAB/SP) e antropólogo (ABA) e professor tutelar (Antropologia aposentado da UFPA), mestre doutor em CS (Antropologia), membro efetivo da Academia Paraense de Ciências e de outras Academias e entidades culturais, tais como: ACLASP, ALPAS21, ALALS, ALAF, ABARS, UBE, Liberar-te e etc. É autor de Antropologia e poesia, entre os quais “TUXA”, Índios do Nordeste (1997) e Poesia da Vida (2024).


“D I R E I T A E D I R E I T A”, por Orlando Sampaio Silva

Com fins classificatório, político e ético, passo a reportar-me a posicionamentos sociais e políticos presentes na sociedade humana e que se caracterizam pelo epíteto DIDEITA.

Cada vez mais acentuadamente, a partir das últimas décadas do Século XX, tornou-se costumeiro, nos meios políticos e nos jornalísticos, principalmente pessoas públicas serem subdivididas ou classificadas em três grupos com algumas subdivisões. Estas classificações objetivam marcar ou caracterizar posições ideológicas dos classificados. As posições básicas são: DIREITA   /   CENTRO   /   ESQUERDA. Entre a direita e o centro, e entre o centro e a esquerda, estariam os classificados em uma gradação que indicaria maior ou menor proximidade das posições básicas, extremas: CENTRO-DIREITA e CENTRO-ESQUERDA.

Esta constelação de opções ou posicionamentos assim classificados não indica apenas opções em face da estrutura econômica da sociedade e sua dinâmica, como costumeiramente se pode encontrar em artigos e comentários na imprensa, mas não só aí. A direita, do ponto de vista economicista, está embricada com uma visão neoliberal da economia dos países. Esta organização econômica assim intitulada (neoliberal) é típica do capitalismo que vem sendo constituído principalmente ao longo das Idades Moderna e Contemporânea, tendo como marco inicial as Grandes Navegações/ Expansionismo colonialista/Expansionismo da exploração de bens naturais ou não em novas terras conquistadas/Escravidão moderna e o fim do feudalismo, no final da Idade Média-início da Idade Moderna. Também a Revolução Industrial, que marcou um grande salto econômico e tecnológico no sistema capitalista, e que junto com a Revolução Francesa, sinalizaram a passagem para a Idade Contemporânea. Nesse período bitemporal, se foi fundamentando, por um lado, no desenvolvimento econômico capitalista e, por outro, em algumas ideias florescentes no movimento revolucionário francês, esquemas de estruturas e de organizações social e estatal. Estas, apesar da aparência, não implicaram na prevalência de sistemas políticos republicanos, democráticos ou não democrático, e, no fim das monarquias, muitas das quais absolutistas. Nesta fase da história, tem início a perda crescente do poder político do Vaticano-Igreja Católica. Após a Revolução Francesa, logo se instauraou o Terror e não demorou para que Napoleão Bonaparte fosse auto-coroado Rei da França.

O neoliberalismo não tem necessariamente compromisso com sistemas políticos democráticos. Seu fundamento básico se encontra no fortalecimento do sistema capitalista com o crescimento do capital privado, sem limites de qualquer tipo, O capital deve crescer mediante o fortalecimento do lucro dos seus donos, sem nenhum compromisso com a justiça social na distribuição dos bens forjados no sistema. Para tal, segundo esta concepção capitalista, é fundamental ser constituído o “Estado mínimo”. Conforme esta visão patrimonialista, os países ou as sociedades devem se constituir em Estados e estes devem ter a função precípua de garantir a segurança para que o patrimonialismo cresça, o capital seja acumulado nas mãos dos capitalistas, ou seja, dos detentores do capital privado. Todas as responsabilidades ou tarefas na sociedade que podem propiciar lucro devem ser asseguradas aos detentores do capital, que se constituem na classe mais alta, dominante na sociedade. Esta apropriação ocorre em detrimento do capital e seus bens também beneficiarem as demais classes sociais  –  média e baixa, e suas subdivisões. Educação e saúde, por exemplo, são áreas do espectro social que podem ser exploradas de forma a propiciar o lucro; assim, elas, no sistema neoliberal, devem estar em mãos do setor privado da sociedade, independente das necessidades básicas da população. Nesse sistema, a concepção norteadora, a ideia básica é a de que “o Estado deve garantir ao setor privado a gerência e a apropriação das riquezas e, sob esta gerência, dizem eles, o “bolo” crescerá; o povo, a sociedade precisam esperar o “bolo” crescer, para então ser o mesmo repartido, dividido”. Esta é uma “utopia” cujos instituidores não estão preocupados ou comprometidos com esta “divisão”, com esta “repartição” ou coparticipação. Eles temem a revolta dos carentes!  Assim é idealizado o estado neoliberal e esta é uma concepção social, econômica e política que é assumida por seus participantes como um ideário, um sistema estrutural da DIREITA, em oposição ao da ESQUERDA, que é estatizante e centrada não nos interesses da classe dominante, mas, sim, na atenção às necessidades dos setores mais pobres, não capitalizados e necessitados da sociedade.

 

Esta é a DIREITA economicista capitalista.

Porém, há outra DIREITA, sendo esta de caráter mais estritamente político-ideológico. Trata-se dos movimentos políticos que proliferaram na primeira metade de Século passado. Eles são: o Fascismo e o Nazismo. Essas ideologias têm semelhanças entre si, mas não necessariamente são inteiramente iguais, não se confundem em todos os seus aspectos. Ambas propagam como formas de governar sistemas autoritários, ditaduras, ausência das liberdades, estados policialescos e militaristas. O fascismo completa estas características com um culto à personalidade do ditador todo poderoso. Há quem diga ser o Nazismo influenciado pelo pensamento do filósofo Nietsche, que, em suas obras, erige a ideia de ser forjado ou gerado o super-homem, em um posicionamento  crítico, ético e ontológico ante a humanidade, o ser, o ente,  como se apresentariam em seu tempo, Os fascistas se julgam herdeiros  do autoritarismo militarista e expansionista do Império Romano, escravagista, autoritário e dominado por uma casta nacionalista privilegiada, que se julgava herdeiros ou influenciada pelos saberes filosóficos e literários gregos. O exemplo mais categórico do sistema e da liderança política autoritária fascista encontra-se na Itália de Mussolini. Já o Nazismo, além das características antes referidas, ele é marcado pelo racismo. O nazismo cultuava (e cultua) a categoria racial ariana, branca, que era considerada superior às demais raças, e elegeu a etnia judaica como o modelo mais drástico da inferioridade humana. Para os nazistas, os judeus deveriam ser sacrificados, extintos, suprimidos da face da terra, com a prática de um genocídio visceral, como estava acontecendo na Alemanha nazista sob o comando de Adolf Hitler. A Alemanha nazista com Hitler e seus apaniguados civis e militares foi o caso mais trágico da prática desse sistema na história da humanidade.

Políticos brasileiros, que, nos dias atuais (a partir do forjamento do bolsonarismo e como saudosismo da Ditadura-Militar), se intitulam abertamente de direita, salvo raríssimas, lamentáveis e condenáveis exceções, ao se postarem em seu partidarismo ou posicionamento de direita, se esquecem ou omitem a revelação referente a serem ou não partidários do neoliberalismo capitalista e, também, do nazifascismo! O povo brasileiro deve estar alerta ante a presença agressiva desta categoria solerte e perigosa de políticos no cenário político do país. Estamos próximos da escolha eleitoral de políticos para os Poderes Legislativo e Executivo. Rigor e responsabilidade nas escolhas!

 


O autor Orlando Sampaio Silva nasceu em Bragança, PA em 24/01/1932, é advogado (OAB/SP) e antropólogo (ABA) e professor tutelar (Antropologia aposentado da UFPA), mestre doutor em CS (Antropologia), membro efetivo da Academia Paraense de Ciências e de outras Academias e entidades culturais, tais como: ACLASP, ALPAS21, ALALS, ALAF, ABARS, UBE, Liberar-te e etc. É autor de Antropologia e poesia, entre os quais “TUXA”, Índios do Nordeste (1997) e Poesia da Vida (2024).


 

“A verdade dos olhos”, por Renato Benvindo Frata

Diz a sabedoria que, ao rezarmos, deveríamos pedir que sejamos como os regatos e as árvores. Simples, calmos e belos. Para termos verdor na primavera e um rio onde ir ter quando acabarmos. Essa fala não é minha, mas de Alberto Caeiro, o heterônimo criado pelo escritor português Fernando Pessoa e considerado o mestre dos demais heterônimos pessoanos.

Na pele dele, Fernando defendia uma poesia sensorial, ligada à natureza e avessa a reflexões filosóficas. Rejeitava o pensamento abstrato e a metafísica, resumindo sua filosofia ao lema de que “pensar é estar doente dos olhos”. Ou seja, os olhos veem exatamente como as coisas são. O intelecto é que as deforma com interpretações.

Não seria capaz de dialogar com a inteireza necessária sobre como Fernando pensava e como Caeiro se manifestava. Entre ambos havia ambiguidade.

Ao escrever, Fernando mergulhava na filosofia, ao contrário de Alberto que, mesmo filosófico, tentava se livrar dela. Essa afirmação está na frase: “Não quero compreender a flor quando falo de flor; quero apenas não deixar de vê-la como a flor que é.” O que vier depois já não pertence à flor vista, mas à interpretação que o pensamento acrescentou a ela.

Cá entre nós, que com nossa grosseria pisoteamos flores, diria que poeta não é o louco que às vezes rotulamos pelo comportamento. É alguém que conversa na linguagem dos olhos. Veem uma flor e nela descobrem o amor, a morte, Deus ou a saudade. Caeiro queria apenas vê-la. Quer um exemplo? Não é difícil.

O romântico olha uma tarde e deposita nela sua melancolia. Vê a árvore e a transforma em símbolo. Contempla o pôr do sol e encontra a passagem do tempo, a morte, a saudade ou Deus. Descreve-os com palavras tristes, nostálgicas e soturnas.

Caeiro faz o contrário. Ele retira o homem da paisagem, tira o belo da imagem e prova que a tarde não está triste. Nós é que estamos. Que o vento não traz mensagens, mas o homem dos Correios. Uma folha que cai não está a falar da morte. Ela simplesmente não fala. As coisas existem e isso basta.

Eis a sua travessura: pede que não procuremos significados nas árvores e nos regatos e, no entanto, é com eles que ensina a simplicidade. Talvez nem ele conseguisse apenas ver. Afinal, entre os olhos e a palavra, alguma coisa sempre acontece.

Confira com a síntese contemplativa que escreveu:

Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

 


Professor universitário aposentado – Contador e Advogado. Presidente de honra da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, PR. Publicou os livros: A Pá de Polenta (Conto – premiado no FEMUP-1994), O Sapo Chorão (infantil-Publicado pela Secretaria Municipal da Educação de Paranavaí,), Reflexão dos Cinquenta (conto – publicado pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná), O Cavalariço e a Rainha Roxa (Contos e crônicas – Premiado no Concurso Literário da UBE/RJ), Quarto de Solteiro (crônicas) Ipê Amarelo (contos e crônicas – Premiado no FEMUP), Azarinho e o Caga-fogo (conto e crônicas – Premiado no FEMUP e no Concurso Literário de Brasília), Coleção Alegria (infantil) e O Gato Tiziu (Infantil em parceria com seu neto, Alexandre Luís Frata Selani), 308 Minicontos (com até 150 toques), 200 Microcontos (com até 100 toques), Rosso Saladete, o Intrépido Tomate, (infantojuvenil), Fragmentos (crônicas).


 

“Cara de Gente Boa”, por Adriana Toribio

Rugas que levei décadas para esculpir ao redor de dois olhos castanhos básicos, uma boca cheia de dentes com uma língua que fala mais do que deve frequentemente e trava quando deveria ser eloquente, um nariz com dois orifícios, que qualquer partícula microscópica de pó consegue entupir, duas bochechas tão gorduchas que fecham minhas pálpebras quando sorrio, um queixo com uma covinha no meio, minha característica favorita, e cabelos ralos mantidos castanhos por aplicações mensais de tintura, que fazem uma meleca enorme no meu banheiro. Apresento meu rosto e sua moldura.

Ele era distinto pelo simples fato de ser unicamente meu. Não tenho irmã gêmea. Se queria vê-lo, bastava olhar no espelho. Fotos e vídeos de festas e viagens também me mostravam a conquista dos anos vividos na pele cada ano mais flácida e nas linhas rabiscadas pelo tempo, rugas.

Elas estavam cada dia mais visíveis. A mídia social sugeriu filtros estéticos, temáticos lúdicos, uma gatinha, uma fada, uma onça pintada, loira, ruiva, sempre maquiada, tudo tão divertido.

Entrei na brincadeira. Dei permissão para todos os aplicativos de mídia social escanearem meu rosto, e passei a usar filtros em todas as minhas postagens, fotos, vídeos, até durante videoconferências em tempo real. Incrível essa tecnologia. Como consegue fazer uma máscara de vampiro se aderir as minhas feições e acompanhar todos os meus trejeitos? Parece magia.

Eu ficava tão mais bonita, jovem, dinâmica, sensual. Meu rosto no espelho era tão sem graça. Passei a checar minha imagem através da câmera do celular com um filtro simples, só uma maquiagem ligeiramente mais aprimorada que a real. Para que reuniões no escritório? Fujamos do trânsito! Que cineminha que nada; cada um pega seu vinho e sua cervejinha e assistimos um filme por streaming simultaneamente, enquanto trocamos mensagens apimentadas. Pede uma entrega de pizza. Tão mais econômico. Isso que é modernidade.

Encontro romântico mais furado. Eu sou muito mais velha que minha foto no perfil? E você? Sessenta querendo passar por quarenta? Pois sim! Pelo menos eu estou na faixa dos trinta e meu filtro é de Ti-Gre-Sa! Impossível determinar a idade de uma tigresa.

Por que tenho que ir a este almoço em família? Olha para essa cara de cansaço! Eles não me veem há tanto tempo. Vão me achar envelhecida, gorda, acabada. Não ao encontro com as amigas. Não ao casamento do sobrinho. Não as exigências de reuniões presenciais. Não ao cliente chato que faz questão que eu vá conhecer suas instalações.

Transferência? Uma área focada em serviços administrativos? Corte na comissão de vendas? Tudo bem. Vou economizar um monte sem precisar mais sair de casa. Minhas séries favoritas são ótima companhia.

Viram um vídeo meu, sem filtro, falando mal de uma série que eu amo. Abri o link e dei de cara com uma mulher com aparência séria e compenetrada destroçando um dos meus atores favoritos. O aplicativo de mídia social permitiu que outra usuária escolhesse meu rosto como filtro. Cliquei ferozmente até encontrar minhas feições de antes de eu começar a usar filtros numa coleção de máscaras classificadas como “Cara de gente boa”. Virei filtro.

 


Engenheira eletrônica nascida e criada em São Paulo, Adriana Toribio trabalhou em telecomunicações por vários anos antes de se perder pelo mundo, acompanhando as transferências do marido, criando duas filhas e escrevendo estórias para tentar fazer sentido de suas experiências.

Brasil, China, Estados Unidos, alegrias, desafios, fracassos, conquistas, a soma foi positiva pelos amigos espalhados pelo mundo, pelas experiências culturais e culinárias, pelas tradições literárias que descobriu e pelos livros que acumulou. Ela já fez as pazes com a realidade de que uma vida só não é suficiente para ler tudo o que gostaria.

No momento, ela mora na Califórnia, onde completou um programa de dois anos de Escrita Criativa na Universidade da Califórnia – Berkeley, e se mantém antenada ao que se passa no Vale do Silício e em Hollywood.

Personificadores, seu primeiro romance publicado pela Editora Patuá, explora emoções e interações humanas em tempos de tecnologias que roubam e distorcem nossa arte e criatividade, alterando como nos vemos uns aos outros e a nós mesmos.


 

Lançamento de livro infantil que aborda o luto infantil durante a pandemia.

O livro “O primeiro passeio” de Fabiano Tadeu Grazioli, é editado pela editora Aletria.

É a primeira vez que o menino viaja no banco da frente do carro, ao lado do pai. O caminho para a casa dos avós é o mesmo de sempre. Mas há algo de novo nessa viagem…

Publicado pela editora Aletria, “O primeiro passeio” é um livro infantil que se passa num período traumático de nossa história, a pandemia de Covid-19. Mas, em nenhum momento, a palavra “pandemia” ou o coronavírus são citados. Sabemos disso porque os personagens usam máscaras de proteção.

A travessia do luto Pela janela, o menino observa animais que foram atropelados na rodovia. O primeiro deles é uma mamãe tamanduá. Com um aperto no peito, ele imagina como estão os filhotes que aguardam o retorno da mãe, que não voltará.

A mãe do menino não viaja junto no carro; entendemos que ela faleceu. Mas, de alguma forma, ela se faz presente e acompanha o filho. Num cochilo, um soninho, a mãe surge no sonho, e a sensação é muito boa. Até que chegam ao destino, a casa dos avós.

O primeiro passeio, escrito pelo doutor em Letras, professor, pesquisador e diretor de teatro Fabiano Tadeu Grazioli, foi ilustrado por Rafa Antón – que, para a Aletria, ilustrou também Formigável (Janaína de Figueiredo) e Perguntas Sem Respostas (Jonas Ribeiro).

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“Amar é…”, por Francisco Rogido

Primeiro round.

Ali dentro éramos três. Eu, ele e Deus contra nós dois. O russo mastigava o protetor com a boca aberta como um cachorro que não larga o osso. Espalhava os braços, acenava para o pessoal, socava o ar e dava uns saltinhos igual a uma bicha, como se estivesse me desafiando. Como se estivesse dizendo, “tá vendo seu merda, eles me adoram e você está sozinho”. Eu estava cansado e puto da vida. Na noite anterior a vaca da Rute resolveu brigar e revirar um monte de coisas da minha vida, do passado, sabendo que a luta era hoje. Eu sai do hotel e fiquei andando um tempão por Las Vegas pensando no tempo em que eu ficava na entrada do Home Depot esperando o trampo do dia, ou lavando prato, lavando carro, todo molhado e tossindo sem parar. Nem dormi pensando que eu tinha vindo pra esse inferno cheio de luz ardendo na minha vista por causa dela, pra juntar um dinheiro e pra voltar. Eu olhei pra ele e fiquei com medo, dele e de mim, pois no momento que começasse a quebrar aquela cara branca com meu soco eu não ia parar. Sei lá, eu tinha uma coisa meio animal que até me dava medo.

O juiz perguntou se tava tudo ok e bateu a palma emborrachada no meio do ringue. Normalmente, pra gente civilizada, isso é sinal pra tocar as luvas, e eu até que fui lá e estendi os dois punhos, que o safado recusou tocar. Lembrei do dono do Car-Wash, aquele gaúcho pilantra que não me pagava. Até chegou perto, mas não chegou a tocar, e foi aí que eu vi que ele era maior do que eu, e foi aí que eu fiquei com mais raiva ainda dele. Eu sou um cara gozado mesmo, o filho da puta ali doido pra me foder e eu ainda vou lá encostar minha luva na dele. A vaca da Rute tem razão, para um cara com segundo grau completo e que arranha inglês, eu era meio otário e sem ambição. Por um lado tinha sido bom eu ter mandado o dinheiro. Ter trazido essa vigarista pra cá. Assim eu pensei que podia vigiar melhor. Antes da primeira porrada, ficamos ali andando em círculos, esquivando, estudando o olho um do outro naquela frieza, como os bichos do canal do mundo animal. Eu fiquei gingando na frente do cara, afinal eu era brasileiro.

A primeira porrada foi minha, mas não pegou legal. O professor falou que o nosso corpo tem 203 ossos e que pra se ganhar uma parada a gente só precisa quebrar um só. Porra será que a Rute está por aí? Dei logo uma cabeçada no esterno dele pra ficar sem ar. O juiz me advertiu e eu fui ficando puto também com o juiz. Ai eu resolvi recuar, e ele cresceu. Me deu um chute nas costelas que pegou e cheio, deu até uma certa falta de ar. Na verdade eu dei mole e ele começou a me socar sem parar. Olhei no fundo do olho dele e parecia que ele estava gostando daquele negócio de ficar me dando porrada na cara. Quando eu caí no chão olhei e tinha um cara na terceira fila que ficava rindo da minha cara. Devia ter reagido. Devia ter dado umas porradas na Rute. O professor diz que o ultimeitifáiti vai salvar minha vida, sei lá. Sei lá, de repente ela está certa.  Mas comigo é assim, fico na dúvida de fazer alguma coisa, o tempo passa, e eu não faço nada. Eu devia ter dado aquela porrada quando ele abriu a guarda. Agora é tarde. Um supercílio aberto não dói muito, mas causa uma má impressão danada para os juízes. A campainha tocou. Vou ter que reverter essa situação. Fui andando para o meu canto de cabeça baixa. Parceirinho arqueava os ombros e perguntava o que estava acontecendo. Olhei para o cara da terceira fila e ele espremia o beiço e balançava o polegar pra baixo. Sentei no meu canto, caladão.

 

Segundo Round

O Merthiolate, éter ou sei lá que merda era aquela, ardia um bocado, mas era bom pra estancar o sangue. Pra ver se estanca também minha raiva que não parou desde quando a Rute disse que ia casar com um gringo pra pegar o grincardi. Que isso, que aquilo, que aquilo outro, o Professor e o Parceirinho ficaram atazanando minha cabeça com um monte de teoria até que a campainha tocou, e eu já sai partindo pra dentro daquele sunofabitchi que tava comendo a Rute.

Minha cara estava cheia de vaselina. Eu já estava todo fodido. Eu não via nada. Minha cabeça latejava de dor. Eu sentia meu sangue ferver. Tive tanta raiva que parecia que meu peito ia explodir. Me deu vontade de dar um tiro na cara daquele filho da puta, mandar o Professor ir tomar no cú, o Parceirinho se foder, mandar aquele babaca da primeira fila calar a boca, cabecear o septo do juiz, socar a cara da Rute até ela parar de ter razão. Eu sentia meu sangue ferver. Até que enfim, consegui derrubar o cara. Cai por cima dele, o cara fedia a mofo. Quando imobilizei o infeliz, ele suava igual a uma ratazana. Fiquei mirando aquela tatuagem de sereia no trapézio dele, doido pra arrancar com os dentes igual ao maiqui taison. O cara era americano, acho que ele estava com nojo do meu suor se misturar com o dele, pois aqui eles não gostam de preto, e aí eu encaixei meu cotovelo bem no meio dos cornos dele. Na volta ele me deu uma porrada debaixo do queixo. Nem doeu, por que eu já estava meio cego de raiva. Uma pasta vermelha começou a escorrer do nariz dele. Peguei o braço dele e encostei no meu peito, cai para o lado e de quebra ainda dei um chute na cara dele. Enrosquei as pernas até fechar o triângulo. Tentei a imobilização, mas o cara parecia de borracha. Fui chamando no braço até torcer legal. Creck. Aí eu já não lembro mais nada. Foi tudo muito rápido. Eu tava cansado e puto da vida. Meu supercílio parecia uma bica sem carrapeta. Eu não ouvia nada. Só senti tudo rodando, um cara de preto me empurrando e o Parceirinho me levantando e rindo pra mim sem dois dentes laterais. O desgraçado ria, ria e gritava na minha cara um monte de coisas que eu não conseguia entender. Uma tonteira gostosa bateu na minha cabeça. Minha vista foi voltando. Aí é que eu percebi onde eu estava. Abracei o Professor e comecei a chorar igual como meu filho que ficou em Minas faz. Veio um cara da televisão com o microfone me chamando de Dêividi, perguntando não sei o que. Eu disse yes, yes, waza gud fáiti. Ai depois ele perguntou outra coisa, e eu falei  meibi, que quer dizer talvez, pois quando tu não entende uma situação o melhor mesmo é ficar na tua. Mas ai não sei o que me deu pra sentir saudade daquela vaca….fiquei olhando ao redor pra ver se via aquela vigarista… agarrei o microfone e gritei pra todo mundo escutar.. Tênquiu. Ai lóviu Rute!! Todo mundo escutou. Até o cara da terceira fila, aquele que ficava rindo enquanto eu estava fodido, aplaudiu meio contrariado.

 


Francisco Rogido nasceu no Rio de Janeiro em 1972. É mestre em História, escritor e tradutor. Trabalhou por alguns anos como tradutor do projeto Biblioteca Digital Mundial (wdl) da Biblioteca do Congresso/Unesco em Washington DC. Teve contos publicados em sites literários portugueses como Pnet Literatura, na Revista Cult (Brasil), Agália (Espanha), e Revista da Faculdade de Letras de O Porto, E-Fabulações, SP Review. O conto acima,  junto aos outros da série,  ficou entre os dez finalistas do Prêmio Latino-Americano de Literatura Jovem da Aliança Francesa de São Paulo-Brasil/2008


UBE Cast entrevista ADRIANA TORIBIO | Ep. #63 | Temp. #02

Engenheira eletrônica nascida e criada em São Paulo, Adriana Toribio trabalhou em telecomunicações por vários anos antes de se perder pelo mundo, acompanhando as transferências do marido, criando duas filhas e escrevendo estórias para tentar fazer sentido de suas experiências.

Brasil, China, Estados Unidos, alegrias, desafios, fracassos, conquistas, a soma foi positiva pelos amigos espalhados pelo mundo, pelas experiências culturais e culinárias, pelas tradições literárias que descobriu e pelos livros que acumulou. Ela já fez as pazes com a realidade de que uma vida só não é suficiente para ler tudo o que gostaria.

No momento, ela mora na Califórnia, onde completou um programa de dois anos de Escrita Criativa na Universidade da Califórnia – Berkeley, e se mantém antenada ao que se passa no Vale do Silício e em Hollywood.

Personificadores, seu primeiro romance publicado pela Editora Patuá, explora emoções e interações humanas em tempos de tecnologias que roubam e distorcem nossa arte e criatividade, alterando como nos vemos uns aos outros e a nós mesmos.

Assista agora ao episódio completo: