Às vezes sou leve, às vezes pesado como as paredes que me circundam. Eu e elas nos entendemos. Gosto de lhes contar minhas mazelas, de infernizá-las com perguntas e assim agitar seus átomos preguiçosos. E elas me respondem, avançando contra mim. Nas horas lentas, derramadas por um antigo carrilhão feito em madeira de lei, três delas avançam, e um quadro se aproxima, meus ouvidos entregues à música barroca. O quadro é uma reprodução de certa obra renascentista que traz em primeiro plano uma mulher seminua. A mulher não me vê, seu olhar perdido me ignora. Mesmo assim, vou entrar no quadro.
Entro. Nele vou descobrir de onde vem a magia que me encanta. Pode vir da deusa, da musa, da amante, da amiga, enfim, de quem meus devaneios quiserem que essa mulher seja. Estamos num campo, as flores sorriem, nos observam e sentem nossos cheiros. Corremos descalços ao sabor da brisa fresca e nos abraçamos sob o sol da primavera. Depois, fazemos amor embalados pela lira de Eros. O campo não tem paredes, não tem fronteiras. Alegres e exaustos, montamos um corcel branco e fogoso que logo se põe a galopar e quase não responde aos nossos comandos.
A mulher do quadro… Minha primeira filmagem. No campo florido não há impedimentos para nós. Fujo da realidade? Ou quero fazer da realidade um campo florido? Saio, então, do quadro e de casa.
A cidade parece se esconder do dia enquanto deambulo pela avenida que separa o mar dos prédios. Em sentido contrário, um vendedor de pipocas vem vindo. Empurra a carrocinha devagar, tão devagar que paro ao lado dele e peço um saco médio. Depois, pago e me afasto, sem esperar pelo troco. Eu e o vendedor somos mundos estranhos postos em contato na vastidão do domingo. Ele vende pipocas para não ter que vender a alma ao diabo; eu ando a esmo para que o diabo não queira comprar a minha. Fora do quadro, continuo a filmar o que vejo. À minha frente, um cobertor rasgado serve de abrigo a dois garotos franzinos. Um deles o puxa de cá, o outro de lá, se estranham, quase brigam. Quando lhes dou algumas moedas, sorriem, interrompem a disputa encarniçada e reviram os olhos vermelhos de crack. Valeu, tio – dizem.
Chego à praça, o sino da igreja toca e algumas pessoas entram. Parecem afobadas, mas, sem nenhuma afobação, um bêbado se aproxima da porta principal. Percebo seu avançado estado etílico pelo andar torto e adivinho o que vai fazer. Sem me notar, ele entra no templo como se entrasse no lar que não tem. Será que algum fiel fará o obséquio de devolvê-lo à rua? Não espero para filmar.
Passo agora em frente à portaria de um grande edifício e vejo duas meninas imersas num beijo novelesco. Devem ter cerca de vinte anos, talvez até um pouco menos. Há quantos minutos estão assim e por quantos mais ficarão? O mundo dos enamorados gira no mesmo ritmo da minha caminhada sem rumo. Gira mesmo? Por vezes acho que não e até duvido que o planeta gire. Mas certo Jean Léon Foucault e seu pêndulo disseram que gira.
As meninas imersas no beijo, o bêbado afogado em pinga, os garotos que ainda devem estar brigando pelo cobertor e o vendedor de pipocas não poderão ver a lua em sua exuberância crescente. Eu também não. A chuva não quer que a vejamos, talvez por ciúme. Uma pena.
Sigo sem pressa, filmando a cidade com o olhar. Não fiz um roteiro, capto imagens e no meu filme a história surge do que me causa sensações variadas, misturas imprecisas de desalento e ânimo.
No domingo que finda começo a sentir a chuva na pele. Antes, ela parecia não me molhar, como se fosse de uma secura ímpar. Agora já não é mais. Meus braços estão salpicados de gotas que brilham como pequenos diamantes. Gosto da imagem, por isso a filmo.
A noite chega e por fim ou por início chego a casa, onde tudo promete se repetir. Ou não. Olho para a mulher que no quadro balança os longos cabelos cor de mel. Seu olhar, antes pousado num ponto qualquer do nada, já não me ignora. Sinto que a deusa, a musa, a amante e a amiga vão sair da moldura. A vida lá fora existe e elas também a querem filmar.
(publicado na Antologia do Prêmio VIP de Literatura – edição 2022 – AR Publishers Editora)

Nascido em 1958, é natural de Niterói (RJ), Dr. em Educação, Prof. Titular aposentado da UFRJ e membro da APPERJ. Como Renato Massari, publicou os romances “Similitudes” (2022) e “Barca das Lembranças (2021) – este agraciado com o Prêmio Planeta Litterae (Editora Planeta Azul). Em 2025, já como Renato Moura, obteve o quarto lugar no Prêmio Nacional Poiesis de Literatura, com o microconto “Ser”, e Menção Honrosa no Concurso Primavera Eterna (Editora Typus) com o conto “Tatuagens”. Tem ainda poesias e contos publicados em revistas virtuais e antologias.
@renatomassari.oliveira
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