“Cara de Gente Boa”, por Adriana Toribio

Rugas que levei décadas para esculpir ao redor de dois olhos castanhos básicos, uma boca cheia de dentes com uma língua que fala mais do que deve frequentemente e trava quando deveria ser eloquente, um nariz com dois orifícios, que qualquer partícula microscópica de pó consegue entupir, duas bochechas tão gorduchas que fecham minhas pálpebras quando sorrio, um queixo com uma covinha no meio, minha característica favorita, e cabelos ralos mantidos castanhos por aplicações mensais de tintura, que fazem uma meleca enorme no meu banheiro. Apresento meu rosto e sua moldura.

Ele era distinto pelo simples fato de ser unicamente meu. Não tenho irmã gêmea. Se queria vê-lo, bastava olhar no espelho. Fotos e vídeos de festas e viagens também me mostravam a conquista dos anos vividos na pele cada ano mais flácida e nas linhas rabiscadas pelo tempo, rugas.

Elas estavam cada dia mais visíveis. A mídia social sugeriu filtros estéticos, temáticos lúdicos, uma gatinha, uma fada, uma onça pintada, loira, ruiva, sempre maquiada, tudo tão divertido.

Entrei na brincadeira. Dei permissão para todos os aplicativos de mídia social escanearem meu rosto, e passei a usar filtros em todas as minhas postagens, fotos, vídeos, até durante videoconferências em tempo real. Incrível essa tecnologia. Como consegue fazer uma máscara de vampiro se aderir as minhas feições e acompanhar todos os meus trejeitos? Parece magia.

Eu ficava tão mais bonita, jovem, dinâmica, sensual. Meu rosto no espelho era tão sem graça. Passei a checar minha imagem através da câmera do celular com um filtro simples, só uma maquiagem ligeiramente mais aprimorada que a real. Para que reuniões no escritório? Fujamos do trânsito! Que cineminha que nada; cada um pega seu vinho e sua cervejinha e assistimos um filme por streaming simultaneamente, enquanto trocamos mensagens apimentadas. Pede uma entrega de pizza. Tão mais econômico. Isso que é modernidade.

Encontro romântico mais furado. Eu sou muito mais velha que minha foto no perfil? E você? Sessenta querendo passar por quarenta? Pois sim! Pelo menos eu estou na faixa dos trinta e meu filtro é de Ti-Gre-Sa! Impossível determinar a idade de uma tigresa.

Por que tenho que ir a este almoço em família? Olha para essa cara de cansaço! Eles não me veem há tanto tempo. Vão me achar envelhecida, gorda, acabada. Não ao encontro com as amigas. Não ao casamento do sobrinho. Não as exigências de reuniões presenciais. Não ao cliente chato que faz questão que eu vá conhecer suas instalações.

Transferência? Uma área focada em serviços administrativos? Corte na comissão de vendas? Tudo bem. Vou economizar um monte sem precisar mais sair de casa. Minhas séries favoritas são ótima companhia.

Viram um vídeo meu, sem filtro, falando mal de uma série que eu amo. Abri o link e dei de cara com uma mulher com aparência séria e compenetrada destroçando um dos meus atores favoritos. O aplicativo de mídia social permitiu que outra usuária escolhesse meu rosto como filtro. Cliquei ferozmente até encontrar minhas feições de antes de eu começar a usar filtros numa coleção de máscaras classificadas como “Cara de gente boa”. Virei filtro.

 


Engenheira eletrônica nascida e criada em São Paulo, Adriana Toribio trabalhou em telecomunicações por vários anos antes de se perder pelo mundo, acompanhando as transferências do marido, criando duas filhas e escrevendo estórias para tentar fazer sentido de suas experiências.

Brasil, China, Estados Unidos, alegrias, desafios, fracassos, conquistas, a soma foi positiva pelos amigos espalhados pelo mundo, pelas experiências culturais e culinárias, pelas tradições literárias que descobriu e pelos livros que acumulou. Ela já fez as pazes com a realidade de que uma vida só não é suficiente para ler tudo o que gostaria.

No momento, ela mora na Califórnia, onde completou um programa de dois anos de Escrita Criativa na Universidade da Califórnia – Berkeley, e se mantém antenada ao que se passa no Vale do Silício e em Hollywood.

Personificadores, seu primeiro romance publicado pela Editora Patuá, explora emoções e interações humanas em tempos de tecnologias que roubam e distorcem nossa arte e criatividade, alterando como nos vemos uns aos outros e a nós mesmos.


 

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