Os policiais agarraram-no com força e o atiraram na caminhonete. Na delegacia, só foi solto depois de assinar uma declaração de que não voltaria a vender mercadorias no camelódromo. Não tinha a autorização necessária. Dias antes, no frio intenso daquele inverno, diante do filho faminto e da mulher impotente, decidira arriscar-se no comércio.
Voltou para casa caminhando lentamente. O filho pequeno o casamento a graduação em ciências políticas a busca por trabalho o desemprego sua mãe seu pai o presidente quando era criança a dor na canela ainda bem que não quebrou o que deus está fazendo…
Se tivessem televisão, teriam assistido ao discurso cotidiano do presidente Bento. Naquele dia, vangloriava-se de uma visita feita a uma escola no interior.
— Nosso compromisso é com a educação. As gerações vindouras nos agradecerão por nossas ações generosas. Nossos filhos e nossos netos terão vidas prósperas.
Antes de deitar-se, saiu para o quintal para assegurar-se de que ainda havia álcool para o fogareiro.
* * *
No camelódromo, muito movimentado pela manhã, a cena da véspera repetiu-se. Ele não deveria estar lá, mas queria recuperar parte da mercadoria que tinha exposto no chão, sobre um farrapo que deus sabe onde havia encontrado. Não achou os brinquedos velhos. Ao longe, os berros de um vendedor autorizado:
— Olha a bolsa, olha o cachecol! É pra espantar o frio, freguesa! Tem luva de lã, touca com pompom e meia-calça térmica! Três por dez, vem escolher que tá acabando!
Dirigiu-se então ao Palácio do Comércio. Vez ou outra, dava um pequeno tapa no bolso. Chegando ao destino, tirou o frasco que carregava consigo e fez o que tinha de fazer. Alguns passantes, chocados, registraram o momento.
* * *
No hospital, Marta estava sentada com o filho no colo, prostrada no meio do vaivém de médicos, enfermeiros e pacientes, quando recebeu a ligação do primo. Quando o médico chamou, desligou. As notícias não eram boas.
Passou os dez dias seguintes hospedada na casa do primo, indo diariamente ao hospital na esperança de uma melhora. Ele parecia atarefado durante o dia, fazendo telefonemas seguidos. À noite, Marta buscava afastar a dor diante da televisão.
— Ah, não! Bento, não!
— Vou botar no outro canal.
Os registros do momento fatídico tinham chegado à emissora estrangeira.
— Desliga. Não posso ver isso…
No décimo dia, veio a notícia.
* * *
Marta nunca tinha visto toda a família reunida assim. Tios, tias, cunhados e outros parentes de todas as idades e condições, próximos e distantes, aglomeraram-se na rua do primo e saíram rumo ao centro da cidade. “Fora Bento”, dizia um cartaz. Outro ecoava: “Nunca mais!” Os vizinhos juntaram-se à procissão. À medida que avançava, o grupo se tornava cada vez maior. Pararam diante do Palácio do Comércio quando a polícia chegou.
As imagens do protesto foram transmitidas pela emissora estrangeira, enquanto o presidente continuava a discursar no canal oficial.
* * *
Os protestos diários espalharam-se por todo o país. Soldados armados até os dentes foram intimados a fazer o trabalho no lugar dos policiais. Estavam nas cidades e no campo. Em meio à violência, milhares foram presos. Por trás do olhar frio dos militares, percebia-se um fio de compaixão.
Enquanto a emissora estrangeira cobria os acontecimentos, o discurso de Bento no canal oficial começava a mudar.
— Nosso governo tem compromisso com vocês. Entendemos suas preocupações. Fiquem tranquilos: vão colher os frutos de nosso trabalho. A economia já está dando sinais de melhora.
— Onde vai parar isso?
* * *
Houve mudanças profundas no país nos anos que se seguiram à fuga de Bento para o exterior. O filho de Marta crescera resolvido a honrar a memória do pai — ela mesma cuidara disso, contando-lhe, noite após noite, o que restava dele: um frasco, um gesto, um país.
Marta continuava hospedada na casa do primo. De dia, trabalhava no camelódromo, onde ainda se ouviam os pregões dos vendedores autorizados. À noite, espantava-se ao escutar, na televisão, críticas abertas ao governo provisório, e perguntava-se se veria, um dia, outra revolução: aquela que mudaria também o preço do pão.

Youssef Bouguerra nasceu na Tunísia, vive no Brasil e já morou em diferentes países e cidades ao longo da vida. Sua escrita transita entre autobiografia, errância e ficção existencial, explorando temas como identidade fragmentada, pertencimento e deslocamento cultural.

