“A verdade dos olhos”, por Renato Benvindo Frata

Diz a sabedoria que, ao rezarmos, deveríamos pedir que sejamos como os regatos e as árvores. Simples, calmos e belos. Para termos verdor na primavera e um rio onde ir ter quando acabarmos. Essa fala não é minha, mas de Alberto Caeiro, o heterônimo criado pelo escritor português Fernando Pessoa e considerado o mestre dos demais heterônimos pessoanos.

Na pele dele, Fernando defendia uma poesia sensorial, ligada à natureza e avessa a reflexões filosóficas. Rejeitava o pensamento abstrato e a metafísica, resumindo sua filosofia ao lema de que “pensar é estar doente dos olhos”. Ou seja, os olhos veem exatamente como as coisas são. O intelecto é que as deforma com interpretações.

Não seria capaz de dialogar com a inteireza necessária sobre como Fernando pensava e como Caeiro se manifestava. Entre ambos havia ambiguidade.

Ao escrever, Fernando mergulhava na filosofia, ao contrário de Alberto que, mesmo filosófico, tentava se livrar dela. Essa afirmação está na frase: “Não quero compreender a flor quando falo de flor; quero apenas não deixar de vê-la como a flor que é.” O que vier depois já não pertence à flor vista, mas à interpretação que o pensamento acrescentou a ela.

Cá entre nós, que com nossa grosseria pisoteamos flores, diria que poeta não é o louco que às vezes rotulamos pelo comportamento. É alguém que conversa na linguagem dos olhos. Veem uma flor e nela descobrem o amor, a morte, Deus ou a saudade. Caeiro queria apenas vê-la. Quer um exemplo? Não é difícil.

O romântico olha uma tarde e deposita nela sua melancolia. Vê a árvore e a transforma em símbolo. Contempla o pôr do sol e encontra a passagem do tempo, a morte, a saudade ou Deus. Descreve-os com palavras tristes, nostálgicas e soturnas.

Caeiro faz o contrário. Ele retira o homem da paisagem, tira o belo da imagem e prova que a tarde não está triste. Nós é que estamos. Que o vento não traz mensagens, mas o homem dos Correios. Uma folha que cai não está a falar da morte. Ela simplesmente não fala. As coisas existem e isso basta.

Eis a sua travessura: pede que não procuremos significados nas árvores e nos regatos e, no entanto, é com eles que ensina a simplicidade. Talvez nem ele conseguisse apenas ver. Afinal, entre os olhos e a palavra, alguma coisa sempre acontece.

Confira com a síntese contemplativa que escreveu:

Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

 


Professor universitário aposentado – Contador e Advogado. Presidente de honra da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, PR. Publicou os livros: A Pá de Polenta (Conto – premiado no FEMUP-1994), O Sapo Chorão (infantil-Publicado pela Secretaria Municipal da Educação de Paranavaí,), Reflexão dos Cinquenta (conto – publicado pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná), O Cavalariço e a Rainha Roxa (Contos e crônicas – Premiado no Concurso Literário da UBE/RJ), Quarto de Solteiro (crônicas) Ipê Amarelo (contos e crônicas – Premiado no FEMUP), Azarinho e o Caga-fogo (conto e crônicas – Premiado no FEMUP e no Concurso Literário de Brasília), Coleção Alegria (infantil) e O Gato Tiziu (Infantil em parceria com seu neto, Alexandre Luís Frata Selani), 308 Minicontos (com até 150 toques), 200 Microcontos (com até 100 toques), Rosso Saladete, o Intrépido Tomate, (infantojuvenil), Fragmentos (crônicas).


 

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