Destaco aqui dois acontecimentos literários do Amazonas no ano de 2026.
Obviamente, o Amazonas não é todo o Norte. Logo, é uma certa representatividade que está aqui em questão, e o que se visa demonstrar trata-se sobretudo de pensar alguns rumos, determinadas setas diretivas tomadas pela prosa literária nortista em nossa época, em que pesem os significantes de outras manifestações em estados vizinhos.
Disso, considerando as obras em sua totalidade, conseguimos extrair algumas proposições. A primeira delas é que já ultrapassamos em muito o naturalismo, marca nossa tão frequente, bem como os igualmente comuns assomos românticos. Outro ponto importante é o de que sim, estamos sintonizados com o que ocorre no mundo de hoje, tanto estética quanto socialmente, porém a nossa maneira, ou seja, sem recorrer aos temas dominantes das praças centrais. Em outras palavras, encontramo-nos dotados de uma singularidade, que convido aqui os leitores a conhecer.
Dito isso, passemos então a duas elaborações que me parecem um exemplário válido das premissas anteriormente destacadas.
Teto Verde, de Raissa Jambur, é o segundo livro da autora, e aponta para um expressivo salto em sua produção. A extensão do texto seguramente nos engana, pois as curtas páginas não nos fazem prever a densidade de sua narrativa. Nela, temos o entrelaçamento inusitado entre a escassez florestal da capital amazonense – sim, a maior floresta do mundo abriga uma cidade pobre de selva e não arborizada – e a vacuidade afetiva dos relacionamentos entre mãe e filha, na qual os signos se trocam e convertem-se cada qual no emblema do outro. A perspectiva adotada, no entanto, não é passiva, e sim de resistência, e culmina numa virada espetacular, que somente pode ser apreendida pelos leitores por meio da envolvente leitura da trama do texto.
Não é sem algum constrangimento que falo da segundo obra, posto que é de minha autoria. Contudo, a fortuna crítica independente produzida acerca do livro me ampara para tal empreita. Isso posto, baseado nos dizeres de argutos leitores, o que coloco é que Rio das Cinzas se propõe como uma viagem ao coração das trevas das crises climática e econômica que assolam a região, tendo como ente motivador a grande seca nos últimos anos, que na trama é tematizada pela busca de Estevam, um servidor público federal, a fim de encontrar os familiares de garimpeiros sitiados na selva. Nisso, os conflitos políticos, econômicos e humanitários da região afloram sem rodeios, mas sem apelar, com bem destacou o crítico Clei Souza, para as imagens estereotipadas de uma Amazônia monolítica e parada no fluxo da história.
Desse modo, tanto Teto Verde quanto Rio das Cinzas aparecem como amostras destacadas da nova literatura do Norte, que rejeita rótulos e procura por caminhos estéticos originais, isso sem ignorar o diálogo com outras localidades. Espero que esse texto sirva como um convite minimamente motivador à leitura de ambas. Certo que não perderão em arvorar-se por esses territórios tão próximos, porém a muitos leitores ainda desconhecidos.

Victor Leandro da Silva
Prof. Associado da Universidade do Estado do Amazonas
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