Entre a dor e a lucidez

O retrato visceral das mazelas mentais em Sinthoma, de Victor Leandro.

A Editora Temiporã lançou, neste ano, Sinthoma, romance do autor manauara Victor Leandro. O escritor vem consolidando seu nome no cenário literário regional ao explorar, com profundidade, as tensões sociais e políticas que marcam a região Norte. Em 2025, com a publicação da novela Rio das Cinzas, Leandro já havia revelado o impacto severo da crise climática e a negligência do Estado diante das vulnerabilidades da população local.

Em Sinthoma, o foco se desloca para um debate urgente e crescente: a saúde mental. À medida que os transtornos psiquiátricos se tornam mais visíveis na sociedade contemporânea, surge a inquietação: como as instituições e o poder público realmente lidam com essas pessoas? O livro não oferece uma resposta simplista, mas sim um convite contundente à reflexão.

A narrativa acompanha o Dr. Hermes durante o último plantão de um hospital psiquiátrico em Manaus, às vésperas de sua desativação. Ao cruzar os portões, o médico encontra um ambiente inóspito e pacientes submetidos a um estado de total desamparo. O impacto das histórias de abandono e exclusão social que encontra ali levanta uma questão central: para onde essas pessoas serão levadas?

A trama ganha contornos mais complexos com a Dra. Ana, uma figura enigmática que convida Hermes a percorrer uma noite marcada por revelações. Mais do que o hospital, o autor desvela uma cidade também sintomática, que agoniza sob o abandono estatal. Com uma linguagem fluida, Victor Leandro conduz o leitor por uma jornada tensa e necessária. Sinthoma é uma obra fundamental que reacende debates adormecidos, mas que, silenciosamente, corroem o tecido da nossa sociedade. Deve ser lido.

Sobre o autor:

Victor Leandro é ensaísta e autor de ficção. Em 2011, recebeu o prêmio nacional Luiz Ruas, destinado ao melhor ensaio sobre literatura, pelo trabalho intitulado O Norte Impossível – Ficção, Memória e Identidade em Narrativas de Milton Hatoum. Publicou as obras O Artista do Fracasso, Estocolmo, Degredo, Rio das Cinzas, dentre outras. Em 2024, recebeu menção honrosa no concurso internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, pelo romance O Fantasma e a Travessia. É professor de filosofia na Universidade do Estado do Amazonas.

Contatos:
viktorleandro@hotmail.com
@silvavictorleandro

O Norte-Literatura

Destaco aqui dois acontecimentos literários do Amazonas no ano de 2026.

Obviamente, o Amazonas não é todo o Norte. Logo, é uma certa representatividade que está aqui em questão, e o que se visa demonstrar trata-se sobretudo de pensar alguns rumos, determinadas setas diretivas tomadas pela prosa literária nortista em nossa época, em que pesem os significantes de outras manifestações em estados vizinhos.

Disso, considerando as obras em sua totalidade, conseguimos extrair algumas proposições. A primeira delas é que já ultrapassamos em muito o naturalismo, marca nossa tão frequente, bem como os igualmente comuns assomos românticos. Outro ponto importante é o de que sim, estamos sintonizados com o que ocorre no mundo de hoje, tanto estética quanto socialmente, porém a nossa maneira, ou seja, sem recorrer aos temas dominantes das praças centrais. Em outras palavras, encontramo-nos dotados de uma singularidade, que convido aqui os leitores a conhecer.

Dito isso, passemos então a duas elaborações que me parecem um exemplário válido das premissas anteriormente destacadas.

Teto Verde, de Raissa Jambur, é o segundo livro da autora, e aponta para um expressivo salto em sua produção. A extensão do texto seguramente nos engana, pois as curtas páginas não nos fazem prever a densidade de sua narrativa. Nela, temos o entrelaçamento inusitado entre a escassez florestal da capital amazonense – sim, a maior floresta do mundo abriga uma cidade pobre de selva e não arborizada – e a vacuidade afetiva dos relacionamentos entre mãe e filha, na qual os signos se trocam e convertem-se cada qual no emblema do outro. A perspectiva adotada, no entanto, não é passiva, e sim de resistência, e culmina numa virada espetacular, que somente pode ser apreendida pelos leitores por meio da envolvente leitura da trama do texto.

Não é sem algum constrangimento que falo da segundo obra, posto que é de minha autoria. Contudo, a fortuna crítica independente produzida acerca do livro me ampara para tal empreita. Isso posto, baseado nos dizeres de argutos leitores, o que coloco é que Rio das Cinzas se propõe como uma viagem ao coração das trevas das crises climática e econômica que assolam a região, tendo como ente motivador a grande seca nos últimos anos, que na trama é tematizada pela busca de Estevam, um servidor público federal, a fim de encontrar os familiares de garimpeiros sitiados na selva. Nisso, os conflitos políticos, econômicos e humanitários da região afloram sem rodeios, mas sem apelar, com bem destacou o crítico Clei Souza, para as imagens estereotipadas de uma Amazônia monolítica e parada no fluxo da história.

Desse modo, tanto Teto Verde quanto Rio das Cinzas aparecem como amostras destacadas da nova literatura do Norte, que rejeita rótulos e procura por caminhos estéticos originais, isso sem ignorar o diálogo com outras localidades. Espero que esse texto sirva como um convite minimamente motivador à leitura de ambas. Certo que não perderão em arvorar-se por esses territórios tão próximos, porém a muitos leitores ainda desconhecidos.

 

Victor Leandro da Silva
Prof. Associado da Universidade do Estado do Amazonas