LIVRO ABORDA EROTISMO E SEXUALIDADE NA RELIGIÃO DE UMBANDA

Coletânea de textos evidencia a relação entre corpo e espiritualidade

>O novo livro de Ademir Barbosa Júnior (Dermes) aborda o erotismo e a sexualidade na Umbanda com respeito às individualidades e à diversidade, refletindo sobre experiências cotidianas que entrelaçam corpo, mente e espírito. Assim, a espiritualidade não é concebida como desconectada da vida ordinária: ao contrário, esta é ressignificada de modo a ser experenciada de forma extraordinária.

Publicado pela Editora Mauad X, Umbanda: erotismo e literatura apresenta reflexões sobre masturbação, transexualidade, poliamor, prostituição, dentre outros, temas que, segundo o autor, precisam ser pensados de forma inclusiva pela religião de Umbanda, uma vez que são realidades concretas não apenas nas ruas, na escola, no trabalho e na família, por exemplo, mas também no cotidiano das comunidades-terreiro. Nesse contexto, o corpo não é um impedimento às vivências espirituais, místicas, litúrgicas etc., mas o protagonista da existência individual e das convivências.

Para Dermes, “privilegiar a ética, dialogar criticamente com as diversas instâncias da moral e rejeitar o moralismo são algumas das maneiras de realmente manter nossos terreiros-quilombos abertos a todos (as) que queiram estar e contestar (des)caminhos espirituais e religiosos que sufocam e empobrecem a vida, em vez de promovê-la”.

O livro tem prefácio do psicólogo clínico, psicoterapeuta e Doutor em Comunicação e Semiótica Jorge Miklos e posfácio de Adrianne de Paula Fonseca, Doutoranda em Comunicação na Universidade Paulista (UNIP) e bolsista CAPES/PROSUP. Pode ser adquirido na https://www.martinsfontespaulista.com.br ou em https://www.mauadx.com.br.

Doutor em Comunicação pela UNIP, Mestre em Literatura Brasileira pela USP, onde também se graduou em Letras, o autor é Doutor honoris Causa pelo MCNG-IEG (2018) e pela FEBACLA (2019) e Pós-graduado em Ciências da Religião pelo Instituto Prominas. Nascido em Piracicaba em 02/8/1972, desde 2019 é patrono e titular da cadeira 62 da Academia Independente de Letras (sede em Pernambuco), com a divisa “Axé”. Em Piracicaba idealizou e coordenou inúmeros projetos culturais e o Fórum Municipal das Religiões de Terreiro (2011-2014), produziu curtas-metragens com temática dos Orixás e dirige a Tenda de Umbanda Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas, fundada em 2015, em Blumenau – SC, e responsável pelo Projeto Terreiro Itinerante. Em 2014 presidiu o Fórum Europeu de Umbanda, em Leiria, Portugal, e em 2015 foi o vice-presidente do Fórum Catarinense de Umbanda, em Blumenau. É Ogã há 24 anos do Ile Iya Tunde (hoje sediado em Embu das Artes – SP), com a dijina Tata Obasiré.

UBE Cast - PAULA FABRIO - Blog

UBE Cast entrevista PAULA FÁBRIO | Ep. #33 | Temp. #02

Paula Fábrio é reconhecida por seus romances, todos finalistas de importantes premiações, entre eles “Desnorteio” (Patuá, 2012), que lhe rendeu o Prêmio São Paulo de Literatura. No gênero juvenil, Fábrio foi distinguida como Autora Revelação e recebeu a láurea Orígenes Lessa de Melhor Livro Jovem, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, com a obra No corredor dos cobogós (SM Edições, 2019). Casa de família (Companhia das Letras, 2024) é seu romance mais recente.

Assista agora ao episódio completo com participação da Paula Fábrio:

O CORREDOR

A mãe passara mal.

Algo impressionante ocorre quando alguém próximo está morrendo. Sabemos que a pessoa vai morrer sem demora. Todos tentamos mudar o que é imutável. Ela vai morrer de qualquer jeito.

Insistentemente, procuramos médicos, remédios, curas milagrosas. Não existe, ela vai morrer. E o morrer é assim, nunca mais a veremos nesta vida. Há que acreditar em outra. Mesmo assim, ela vai morrer.

Os seis irmãos moravam separados. Viviam em lugares distintos, daquele Estado. Casaram-se e foram viver distantes um do outro. Mesmo que se amassem, juntos não dava certo. E esse amor era de se contestar. Que tipo de amor amofina tanto a ponto de só conseguir sobreviver se longe? Era mesmo de se contestar. O pai e a mãe tentaram de tudo. Mas eles não sabiam fazer de outra forma, tudo era exacerbado, tudo era à flor da pele: sentimentos bons e ruins, palavras ásperas, vocabulário pedante. Tudo arquitetado para deixar cada um resumido à sua insignificante vida.

Surpreendente era que se encontravam em sonhos, os mais profundos. Se conectavam por telepatia. Sempre sabiam o que estava acontecendo um com o outro, mesmo longe. Perto, não dava certo mais que três dias.

Ela ficou doente, a mãe. O pai já havia partido. Ela padecia de uma enfermidade que deuzulivre um deles se acometer. Seu sangue havia que passar por uma máquina a ser purificado, como se ela o devolvesse são. Tal máquina purificava o que havia de ruim e também levava o que havia de bom. A mãe era vampirizada ali mesmo. Às vezes aguentava, às vezes não.

Foram chamados todos. Ela estava em tratamento intensivo. Tiveram que viajar por horas para chegar a tempo de ver a mãe.

Os seis reuniram-se à frente da Unidade, tarde da noite. Ficaram ali durante muito tempo, sem uma notícia sequer. Acostumados a falar muito, mal podiam abrir a boca. A enfermeira do quadro, tal qual àquela dos filmes de guerra, colocava o dedo indicador nos lábios, fazendo bico.

Obedientes, iniciavam falando ao pé do ouvido, em seguida, não conseguiam medir o volume das falas: – E a mãe? Precisamos saber como ela está. – Quem vai procurar alguém para perguntar? – A essa hora, ninguém vai dar informação. – Vai tu, pois conheces o funcionamento do hospital.

Sem alternativa, seguiam impacientes esperando por notícia.

De repente, um deles avistou um conhecido ao fundo do corredor imenso. Era, sim, o colega da irmã mais velha. O fora há muitos anos. Talvez nem sequer se lembrasse dela. Mas tentariam de qualquer forma. Gritar não podiam. Não podiam também sair correndo ao seu encontro. O corredor enorme e antigo, assim como toda arquitetura do prédio, com tábuas que se mexiam ao pisá-las, fazia ruídos a qualquer passo.

– Mas tem que haver um jeito! Vai lá e chama o cara!

No vai e vem das discussões, um se decidiu: – Psiu… psiu… psiu… Em vão, o alvo não foi atingido. O moço nem viu que era com ele. Novamente: – Psiu… psiu…psiu… Ainda nada.

Era difícil crer que não conseguiriam respostas depois de tantos sacrifícios. Tinham vindo de tão longe! Sim, a doença era grave e a mãe se negava a alguns procedimentos. Afinal, uma fístula no braço, para o resto da vida, não era pra qualquer um! Esperavam, então, que pudesse, um cristo, dizer-lhes que havia salvação.

Em meio a discussões silenciosas, não perceberam que, indo ao encontro do tal informante, estavam duas senhoras idosas, que caminhavam com dificuldade e que, a cada psiu, se voltavam para eles.

Quando se deram conta do que estava acontecendo, não havia mais tempo de desfazer o mal-entendido. Tentavam sinalizar para que não voltassem. Se entreolhavam, quase a gargalhadas, implorando para que alguém tivesse uma ideia para mudar a situação. – Vai lá, diz que não é pra elas! Não conseguiam.

As duas deram meia-volta a caminhar no longo corredor. Os passos curtos e vagarosos demonstravam a idade e a paciência em atendê-los. Eles seguiam sinalizando que não voltassem, num movimento que imitava um aceno. E elas respondiam também acenando. Isso demorou uma eternidade. Os seis já não aguentavam mais. Certamente, cairiam num riso descompensado. Mas as idosas estavam chegando mais perto e mais perto. E quando se aproximaram, ao invés de perguntarem o que queriam com elas, deram-lhes a notícia.

O riso enrustido agora se desfez.

 

 

Sou Kátia Nascimento. Muito de professora. Muito de acadêmica. Muito de escritora. Muito de Umbandista. Como professora, sou das Letras. Como acadêmica, sou das Letras. E mais Letras como escritora. Como Umbandista, sou de Iemanjá, que representa as águas salgadas que envolvem o Universo. E é nesse envolver o Universo que me lanço em lugares distintos, sem nunca me sentir pertencente. Sou brasileira, do Rio Grande do Sul. Mas, a vida meio nômade que meu pai nos proporcionou, me fez viver um pouco em cada canto. Então, sou muito gaúcha, um pouco paranaense e um pouco catarinense. Agora sou um pouco portuguesa, SE CALHAR, aveirense. Também canto e faço teatro. Publiquei A vida Mística de Eugênia (2017), pela Editora Chiado, Rio das Pedras (2020), pela Editora Traços & Capturas, Fio do Silêncio (2021), pela Kotter do Brasil, Emboscada (2023), pela Vespeiro Edições, de Curitiba, Crônicas de Saravá – memórias de um cavalo de Umbanda (2023), pela Kotter de Portugal, e O Livro no Corpo (2025), também pela Kotter de Portugal.

O DOM DA BOCA

Ter boca é tão bom!
Bom para comer um prato especialmente preparado,
beber aquele drinque festivo no copo alto fino,
despejar tudo que não te faz bem, reclamar com estilo,
fazer biquinho, caretas, mostra raiva ou desprezo.
Bom para beijar, e beijar, e beijar.

 

Bom para expressar ideias, sentimentos, histórias e até mesmo protestos,
deixar entrar a nutrição e o prazer,
sussurrar, deslizar, respirar perto, e morder de leve,
saborear uma fruta fresca do pé, um chocolate e um café,
expressar alegria, simpatia, e conexão com outros.

 

Bom para viver intensamente,
chorar,
calar,
gritar,
cantar,
declamar, falar besteira,
gemer,
e até tocar um instrumento de sopro.

 

Se parar para pensar, a boca é onde corpo, mente e emoção se encontram.
Ter boca é bom pra caramba!

Meire Marion é professora de inglês, língua e literatura, escritora e poeta. É diretora da UBE, responsável pelo Prêmio Cláudio Willer de poesia. Têm sete livros para crianças publicados. É colunista da Revista Voo Livre de literatura. Também participa de diversas antologias com poemas e contos.

Sueli Carneiro é a vencedora do Troféu Juca Pato 2025 - Créditos: André Seiti - Itaú Cultural

SUELI CARNEIRO VENCE O TROFÉU JUCA PATO DE 2025

Sueli Carneiro é a vencedora do Prêmio “Intelectual do Ano” – Troféu Juca Pato de 2025, organizado pela União Brasileira de Escritores (UBE). Ela receberá o troféu das mãos de Míriam Leitão, ganhadora no ano anterior.

Em 2024 a filósofa publicou o livro “Lélia Gonzalez: Um Retrato” (Zahar), concorreu com Daniela Arbex, Jeferson Tenório, Lilia Schwarcz e Maria Valéria Rezende. A votação foi realizada de maneira online pelas sócias e sócios da UBE.

A cerimônia de entrega do Troféu Juca Pato – Prêmio Intelectual do Ano será feita no dia 28 de novembro, sexta-feira, às 21 horas, durante o FliPetrópolis, no Palácio de Cristal.

A UBE parabeniza todas as escritoras e escritores indicados ao prêmio, bem como agradece às sócias e sócios da entidade por votarem em um dos cinco finalistas.

À Sueli Carneiro, vencedora deste ano, nosso agradecimento especial.

Entrevista e lançamento de Paulo Mauá

Paulo Mauá, diretor da UBE, é um dos mais ativos escritores de nossa entidade. Acaba de sair uma extensa entrevista com ele no Jornal da Orla: https://jornaldaorla.com.br/noticias/a-imperfeicao-humana-e-que-da-graca-as-artes/

Além disso, sábado que vem ele vai lançar um livro novo:

 

Esperamos vocês lá!

Todos os associados podem divulgar seus lançamentos aqui no blog da UBE. Basta mandar email com todas as informações para blogdaube@gmail.com.

 

 

 

Haikais coloridos: vermelho

Luz em meus olhos

O pássaro que voa –

Bela é a aurora

 

Três léguas de mar

Até o carmim do sol

Triste é o ocaso

 

 

Hélio Plapler é médico, escritor e membro da UBE. É integrante do GENAM – Grupo de Estudos e Pesquisa em Literatura, Narrativa e Medicina (2014). Seu interesse nas humanidades na formação de médicos o levou a escrever artigos sobre o papel da linguagem em relação à saúde e à educação médica em revistas acadêmicas e em coletâneas. Publicou contos, escreveu e editou obras coletivas do GENAM. Seu primeiro livro publicado foi Crônicas mundanas (2023, Dialética). Finalista do Prêmio Off Flip (crônicas 2022, 2024, 2025). Quarto lugar no Concurso Internacional de Poesia de Joaquim Távora (2023) e Prêmio AFEIGRAF de poesia (2023). Publicou 40 Haikais (2024). Semifinalista do 1º Grande Prêmio Haijin (2025).

Facebook: https://www.facebook.com/helio.plapler
Instagram: https://www.instagram.com/hplapler/

A idade de Cristo

Quando fiz 33 anos, não houve quem não me cumprimentasse com a frase: “A idade de Cristo”. Embora não seja uma cristã praticante, carrego comigo os muitos anos de colégio de freiras. Assim, a idade de Cristo me envaidecia. Memória afetiva.

Um dia, fui à missa com a minha mãe. Há muitos anos eu não entrava numa igreja, a despeito de saber de cor uma celebração inteira. E segui o rito levantando, sentando, respondendo, tudo como manda o figurino. Eis que chega a homilia. Essa parte sempre foi respeitadíssima nas cerimônias religiosas dominicais a que minha mãe nos obrigava, minha irmã e eu, a ir. Eu gostava, para ser sincera. Não apenas de ver tanta gente junta, mas de imaginar um mundo melhor. Sou incapaz de me lembrar de uma homilia daquela época, mas devia ser algo espantoso nos dias de hoje. Digo isso, porque o monsenhor que sempre conduzia as missas tinha cara de bravo, jeito de bravo e era elogiado pelo meu professor de Educação Moral e Cívica e de Organização Social e Política do Brasil – o ouro da pedagogia da ditadura –, um homem que adorava (ou fingia adorar) os milicos presidentes.

Sinto-me traída quando olho para trás, porque eu falava “Brasil, ame-o ou deixe-o” depois de cantar o Hino Nacional, com um tremendo orgulho. E chorei de tristeza quando o bom velhinho Médici, deixou a Presidência da República. À época não sabíamos que por trás de slogan que soa tão singelo havia gente morrendo nos porões da ditadura.

Mas estou tergiversando aqui… Voltemos àquela missa específica, a que fui com a minha mãe aos 33 anos. Tudo estava como de costume e, não nego, veio a lembrança que me levou às missas do passado. Como Proust com suas madeleines, quanto mais eu me esforçava para sentir a emoção primal, mais fugidia ela se tornava.

Voltemos à homilia. O padre falava qualquer coisa, mas eu estava preocupada em segurar a tal da memória escapista. Até que ele disse “… como Cristo, morto aos 33 anos”.

Oi? Nunca relacionei a minha idade à morte de Cristo. Era automática a resposta quando falavam sobre a tal da “idade de Cristo”. Eu não me lembrava que era justamente… aos 33. Não consegui mais prestar atenção à missa. Uma sensação de terror me acometeu, algo parecido com pânico, segundo as descrições que eu li. Minha mão suada tremia quando fui desejar a paz do Senhor para quem estava mais próximo. Tive uma certeza infantil de que aquele seria o meu fim.

É preciso ter um ego muito desequilibrado para se comparar a Cristo. Esse foi o recado da minha consciência, já atordoada por completo. Saí da igreja e passei um ano achando que era o meu último. Hoje, perto dos 66, fico pensando se uma pessoa pecadora como eu não vai fazer a viagem sem volta na idade dobrada…

 

 

Cássia Janeiro é diretora da União Brasileira de Escritores (UBE). Entre outros prêmios, foi a primeira sul-americana a ganhar o Prêmio Mundial de Poesia Nósside, chancelado pela Unesco. Foi professora universitária em diversas instituições de Ensino Superior, consultora da Unesco, onde participou da missão brasileira no Timor Leste, e dos programas Alfabetização e Capacitação Solidária.