TESE DE DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO ABORDA MERCADO RELIGIOSO

Evento em livraria na Avenida Paulista reúne Povo de Axé e da Comunicação

 

No dia 29 de março, às 15h, na Livraria Martins Fontes Paulista, acontece o lançamento de FOI EXU QUE ME DEU”: Exu Coach e a Teologia da Prosperidade na Umbanda, de Ademir Barbosa Júnior (Pai Dermes de Xangô), evento que contará também com atrações culturais. Publicado pela Editora Aruanda, o trabalho é a edição em livro da tese de doutorado em Comunicação que o autor defendeu na Universidade Paulista (UNIP) em setembro de 2025. “A Editora Aruanda tem um selo voltado para trabalhos acadêmicos (Fundamentos de Axé), e foi uma de suas publicações que recebeu o primeiro Prêmio Jabuti Acadêmico em 2024 na Categoria Ciências da Religião/Teologia”, explica o autor.

A tese é resultado de uma acurada etnografia digital que identifica elementos da teologia da prosperidade e da teologia coaching (ambas mais conhecidas no neopentecostalismo) na Umbanda. “Cursos na internet, memes, Marcha para Exu: são vários os fenômenos comunicacionais apontados e estudados”, segundo Dermes, que em novembro passado iniciou um pós-doutorado em Comunicação que parte da tese, mas mergulha em outras questões desafiadoras já desenvolvidas pelo grupo de pesquisa na UNIP. Trabalho orientado pelo Prof. Dr. Maurício Ribeiro da Silva (UNIP), que assina o prefácio, o livro, tem ainda, apresentação do Prof. Dr. Hertez Wendell de Camargo (UFPR) e posfácio da Profa. Dra. Malena Segura Contrera (UNIP).

Autor de diversos livros (alguns premiados e com traduções para diversos idiomas), Doutor em Comunicação pela UNIP, Mestre em Literatura Brasileira pela USP, onde também se graduou em Letras, Pai Dermes é Doutor honoris Causa pelo MCNG-IEG (2018) e pela FEBACLA (2019) e Pós-graduado em Ciências da Religião pelo Instituto Prominas. Desde 2019 é patrono e titular da cadeira 62 da Academia Independente de Letras (sede em Pernambuco), com a divisa “Axé”. Em Piracicaba idealizou e coordenou inúmeros projetos culturais e o Fórum Municipal das Religiões de Terreiro (2011-2014) e produziu curtas-metragens com temática dos Orixás. Em 2014 presidiu o Fórum Europeu de Umbanda, em Leiria, Portugal, e em 2015 foi o vice-presidente do Fórum Catarinense de Umbanda, em Blumenau. É dirigente da T. U. Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas, aberta em 2015, e Ogã há 24 anos do Ile Iya Tunde (hoje sediado em Embu das Artes – SP). Em 2025 foi um dos 80 selecionados de um universo de 120.000 inscritos para o Santander Top España na Universidad de Salamanca.

 

Tarde de autógrafos de “FOI EXU QUE ME DEU”: Exu Coach e a Teologia da Prosperidade na Umbanda

Data: 29 de março de 2026

Horário: 15h

Local: Livraria Martins Fontes Paulista – Av. Paulista, 509 (térreo) – São Paulo – SP

Afonso Borges destaca o livro “Princípio Constitucional da Solidariedade”, obra da ministra do STF. Cármen Lúcia, publicada pela Editora Fórum.

O Mondolivro de hoje fala de uma leitura que me tocou de um jeito raro e especial.

Um livro que não deveria estar apenas nas estantes do Direito, mas na cabeceira de quem acredita na força da palavra e do humano.

Falo de Princípio Constitucional da Solidariedade, da minstra do STF, Cármen Lúcia, publicado pela Editora Fórum.

Cármen Lúcia escreve como quem fala baixo, mas firme. Não impõe conceitos – constrói sentidos. Sua escrita tem algo de confissão e algo de compromisso. A gente sente que cada frase nasce de uma responsabilidade profunda com o outro.

A solidariedade, aqui, não é tese. É uma visão de mundo. É a ideia de que ninguém se sustenta sozinho — nem o Direito, nem a democracia, nem a vida.

Ao ler, tive a sensação de estar diante de alguém que acredita, de verdade, que as palavras ainda podem organizar o mundo. Que escrever bem é um ato ético. E que pensar o coletivo é uma forma de afeto.

Esse livro me lembrou que há autores que não escrevem para vencer debates, mas para não perder pessoas. Para mim, o “Princípio Constitucional da Solidariedade” é, além de literatura da mais alta qualidade, uma forma de diálogo.

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“A amante”, por Sandra Godinho

Anay ouviu o vento balançar as árvores sem notar que também bambeava. Não esperou a terra esfriar do calor, agachou-se, estendendo o corpo rente ao chão, e encostou a cabeça na terra sem se importar com o olhar do marido que se embalava na rede da varanda do pequeno casebre sem nunca a perder de vista.

Anay aspirou, das profundezas do solo, uns bafos quentes e úmidos que traziam os sons das feras da noite, expondo o receio de que a quietude da mata trouxesse para perto de si um mundo de horrores. O marido se irritou:

− Deu para dormir na pele da terra agora, Anay?

− Compadre disse que tem onça rondando a aldeia.

− Onça sempre teve.

− Matam, comem, vão dormir com a barriga cheia e sem culpa. Vamos embora daqui, Romualdo, vamos para a cidade!

− Se aquiete, mulher, vá tratar de dormir.

− É a floresta que iguala todos aos animais. Eu te peço: vamos embora!

− Vá você, se quiser.

Ela queria, mas para escapar de um lugar era preciso escapar de si, ser outra sendo a mesma, e disso Anay não era capaz. Ela regressava ao leito à noite, vagando entre o sono e a vigília com medo de se perder num lugar onde, havia tempos, não chegavam estradas, notícias ou estranhos. Rezava para achar uma terra em que pudesse plantar sementes. Sementes, ela mesma não teve. Seu único filho nasceu morto, sem coragem para enfrentar o mundo que iria se abrir. Após o parto, a mulher rasgou uma boca na terra para que esta engolisse seu rebento e, agora, o solo secava sem ela gestar outro. A natureza tinha um mando silencioso, que dispensava palavra.

Ela se guardava assim, esperando que a terra ou algum bicho a engolisse. Acordava antes do nascer do sol, colhia a lenha para acender o fogão, buscava água, acendia o fogo, coava o café, cortava ripas de madeira para curar as feridas abertas nas paredes, protegendo-se das feras que andavam com a liberdade displicente dos seres da floresta. Seu marido cuidava da criação logo no início da manhã: um cachorro, um cavalo, uma serpente de estimação e um porco. Alimentava-os bem e, depois, passava o dia pescando com os amigos no meio do rio. A ausência de Romualdo enchia Anay de sombras. A mulher perdia o apetite, o sono, o peso, perdia até mesmo o pensamento, que flanava longe, transbordando de insensatez.

Um dia, o marido de Anay chegou, calcou o pé na varanda com tanta força que as paredes tremelicaram, fazendo o baque surdo ribombar pelos cantos.

− Me contaram que você esteve conversando com o compadre!

− Fui ver se ele me emprestava a arma.

− E o que você vai fazer com uma arma? Matar algum bicho ou se matar? Quer virar bicho você também?

− Há muito já sou bicho.

− Bicho, não. Louca, talvez.

− Não sou louca, mas posso acabar ficando.

− Pois de agora em diante, você fica em casa. Lugar de bicho é na jaula.

O rosto de Anay ardeu, as pernas formigaram, os braços adormeceram. Brigava com seu inferno interior, regido por leis que nem Deus podia explicar. Se não rompia as amarras era por medo de não conseguir atravessar o rio, tão infinito quanto o pensamento.

À noite, depois de ouvir as entranhas da terra, recostou-se no leito. O marido, ao seu lado, ressoava como um motor de popa. Anay se sentiu fluir, vagando pela floresta sob o manto da noite que descia sobre a aldeia e a cobria de estrelas. O vento balançou os galhos retorcidos das árvores, as nuvens se rasgaram no céu, a chuva umedeceu a terra e o cheiro ácido do bicho se aproximou.

Seu pelo estava molhado, e ele começou a lambê-la. Primeiro, molhou com sutileza suas mãos, pendendo do lado de fora da rede, depois subiu em seu corpo e passou a língua por suas curvas com avidez. Isso a encheu de prazer. Ela se despiu para que o animal a devorasse com a gentileza de um estranho. Depois do ato amoroso, ela adormeceu na mais completa paz. Acordou na manhã seguinte com o cachorro ao seu lado na rede, também dormindo. Surpreendeu-se, envolta em suor, um tanto gosmenta e malcheirosa. Resolveu banhar-se no rio, antes que o marido acordasse. Perturbou-se. Se antes permanecia imobilizada pelo temor, agora se imobilizava pelo prazer, à mercê do instinto animal. Passou o dia guardada em segredos, a pensar no que lhe tinha sucedido à noite.

O dia se desfez e logo a noite caiu. Anay, longe de temer o sono, passou a desejá-lo. Estou louca, pensou. Fechou os olhos, respirou fundo, sorvendo o ar que a envolvia e se preparou nas dobras da rede. Não conseguiu dormir. Foi até a varanda e se deitou no chão, encostando o ouvido à terra, quando um cheiro acre de bicho a envolveu. Ela se despiu, fechou os olhos e se entregou às carícias. O animal a cavalgou, descendo os vales, subindo as montanhas de seu corpo contorcido de prazer, não mais dona de sua vontade. Na manhã seguinte, acordou nua na varanda com o cavalo ao seu lado. Quis gritar, num pretenso asco, mas pensou no prazer sentido, então se dirigiu para o rio, sem esperar que o marido despertasse.

O dia custou a passar. O homem, depois de cuidar dos animais, saiu para a pesca sem lhe reparar a estranheza, nem o ar ensandecido. Ela falava agora outro idioma, suava e gemia pelos cantos esperando a noite cair para galopar territórios desconhecidos.

Seu marido chegou no final da tarde, com os peixes presos a uma vara e outros tantos em um samburá. Ela moqueou todos eles, transbordando de excitação diante do firmamento já pontuado de estrelas. Mal a noite caiu, o marido desmaiou na cama. Anay despiu-se. Aconchegou-se à rede e esperou pelo cheiro selvagem. Quando lhe chegou às narinas, ela transbordou em alegria de puro apetite animal.

Uma serpente aconchegou-se ao seu corpo, deslizando pelo pescoço, descendo pelo colo até postar-se próxima do sexo úmido, pronto para ser penetrado. Ela desfaleceu de prazer. Na manhã seguinte, a cobra jazia a seu lado. Ela se dirigiu novamente ao rio, passou a mão pelo seio desnudo, pela barriga macia, pelo pescoço que engrandecia. De um modo estranho, sentiu a pele espessa, os pelos grossos e com um cheiro tão intenso quanto o dos bichos, sem deitar maiores preocupações.

Só o que tinha a fazer era esperar a noite dominar. Não gostava de ver o sol ostentar opulência, expulsando as estrelas, assumindo-se soberano. Era a noite que trazia o encanto. Com ela, todos podiam reinar. Esperou a noite definhar o brilho do sol, aprumou-se na rede, enquanto o marido se retorcia no quarto. Desta vez, ele custou a dormir, ameaçando apropriar-se do que era dela por natureza, tomar seu corpo a pulso. No escuro, Anay pensava na visitante da noite quando o cheiro ácido lhe atingiu as narinas. O marido reparou que a mulher se despia, então levantou-se da cama e a abraçou por trás. Queria a mulher rendida, entregue às suas carícias. Anay começou a se sacudir e caiu ao chão, apoiada em suas mãos e pés. Soltou um gemido, uma espécie de esturro, tão forte que calou os demais ruídos vindos da mata. O homem surpreendeu-se com a desfeita e quis chutar-lhe a barriga.

No dia seguinte, o compadre de Anay apareceu no casebre e se apavorou. Na varanda, caído diante da entrada, um porco imenso jazia com a garganta rasgada. Provavelmente, um trabalho de onça, cujas pegadas, envoltas em sangue, permaneciam frescas na varanda. Nenhum outro corpo foi achado. O que chamou a atenção foi um silêncio anormal, como se tudo estivesse em paz.

 

 

Sandra Godinho, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, mora há 23 anos em Manaus; é graduada e Mestre em Letras e tem 14 livros publicados. Orelha Lavada, Infância Roubada (contos – 2018) recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas em 2019; O Verso do Reverso (contos) ganhou o Prêmio Cidade de Manaus  em 2019; Tocaia do Norte (romance) recebeu Prêmio Cidade de Manaus em 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021; A Morte é a promessa de algum fim (romance) recebeu o Prêmio Cidade de Manaus em 2021; Memórias de uma mulher Morta (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2021; A Secura dos Ossos (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2022. Nós, cegos (contos) foi vencedor do 1º Prêmio Carolina de Jesus em 2023 e ganhou o PNAB 2024. O Negro secou (contos) recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Manaus em 2024. Paralelo 11(romance) foi finalista no Prêmio Leya 2024. Tocaia do Norte ganhou ainda o Prêmio da BN em 2023 e está sendo traduzido para o Inglês e A Secura dos Ossos ganhou o Prêmio da BN em 2024 e está sendo traduzido para o Português moçambicano.

O Norte-Literatura

Destaco aqui dois acontecimentos literários do Amazonas no ano de 2026.

Obviamente, o Amazonas não é todo o Norte. Logo, é uma certa representatividade que está aqui em questão, e o que se visa demonstrar trata-se sobretudo de pensar alguns rumos, determinadas setas diretivas tomadas pela prosa literária nortista em nossa época, em que pesem os significantes de outras manifestações em estados vizinhos.

Disso, considerando as obras em sua totalidade, conseguimos extrair algumas proposições. A primeira delas é que já ultrapassamos em muito o naturalismo, marca nossa tão frequente, bem como os igualmente comuns assomos românticos. Outro ponto importante é o de que sim, estamos sintonizados com o que ocorre no mundo de hoje, tanto estética quanto socialmente, porém a nossa maneira, ou seja, sem recorrer aos temas dominantes das praças centrais. Em outras palavras, encontramo-nos dotados de uma singularidade, que convido aqui os leitores a conhecer.

Dito isso, passemos então a duas elaborações que me parecem um exemplário válido das premissas anteriormente destacadas.

Teto Verde, de Raissa Jambur, é o segundo livro da autora, e aponta para um expressivo salto em sua produção. A extensão do texto seguramente nos engana, pois as curtas páginas não nos fazem prever a densidade de sua narrativa. Nela, temos o entrelaçamento inusitado entre a escassez florestal da capital amazonense – sim, a maior floresta do mundo abriga uma cidade pobre de selva e não arborizada – e a vacuidade afetiva dos relacionamentos entre mãe e filha, na qual os signos se trocam e convertem-se cada qual no emblema do outro. A perspectiva adotada, no entanto, não é passiva, e sim de resistência, e culmina numa virada espetacular, que somente pode ser apreendida pelos leitores por meio da envolvente leitura da trama do texto.

Não é sem algum constrangimento que falo da segundo obra, posto que é de minha autoria. Contudo, a fortuna crítica independente produzida acerca do livro me ampara para tal empreita. Isso posto, baseado nos dizeres de argutos leitores, o que coloco é que Rio das Cinzas se propõe como uma viagem ao coração das trevas das crises climática e econômica que assolam a região, tendo como ente motivador a grande seca nos últimos anos, que na trama é tematizada pela busca de Estevam, um servidor público federal, a fim de encontrar os familiares de garimpeiros sitiados na selva. Nisso, os conflitos políticos, econômicos e humanitários da região afloram sem rodeios, mas sem apelar, com bem destacou o crítico Clei Souza, para as imagens estereotipadas de uma Amazônia monolítica e parada no fluxo da história.

Desse modo, tanto Teto Verde quanto Rio das Cinzas aparecem como amostras destacadas da nova literatura do Norte, que rejeita rótulos e procura por caminhos estéticos originais, isso sem ignorar o diálogo com outras localidades. Espero que esse texto sirva como um convite minimamente motivador à leitura de ambas. Certo que não perderão em arvorar-se por esses territórios tão próximos, porém a muitos leitores ainda desconhecidos.

 

Victor Leandro da Silva
Prof. Associado da Universidade do Estado do Amazonas

O CORREDOR

A mãe passara mal.

Algo impressionante ocorre quando alguém próximo está morrendo. Sabemos que a pessoa vai morrer sem demora. Todos tentamos mudar o que é imutável. Ela vai morrer de qualquer jeito.

Insistentemente, procuramos médicos, remédios, curas milagrosas. Não existe, ela vai morrer. E o morrer é assim, nunca mais a veremos nesta vida. Há que acreditar em outra. Mesmo assim, ela vai morrer.

Os seis irmãos moravam separados. Viviam em lugares distintos, daquele Estado. Casaram-se e foram viver distantes um do outro. Mesmo que se amassem, juntos não dava certo. E esse amor era de se contestar. Que tipo de amor amofina tanto a ponto de só conseguir sobreviver se longe? Era mesmo de se contestar. O pai e a mãe tentaram de tudo. Mas eles não sabiam fazer de outra forma, tudo era exacerbado, tudo era à flor da pele: sentimentos bons e ruins, palavras ásperas, vocabulário pedante. Tudo arquitetado para deixar cada um resumido à sua insignificante vida.

Surpreendente era que se encontravam em sonhos, os mais profundos. Se conectavam por telepatia. Sempre sabiam o que estava acontecendo um com o outro, mesmo longe. Perto, não dava certo mais que três dias.

Ela ficou doente, a mãe. O pai já havia partido. Ela padecia de uma enfermidade que deuzulivre um deles se acometer. Seu sangue havia que passar por uma máquina a ser purificado, como se ela o devolvesse são. Tal máquina purificava o que havia de ruim e também levava o que havia de bom. A mãe era vampirizada ali mesmo. Às vezes aguentava, às vezes não.

Foram chamados todos. Ela estava em tratamento intensivo. Tiveram que viajar por horas para chegar a tempo de ver a mãe.

Os seis reuniram-se à frente da Unidade, tarde da noite. Ficaram ali durante muito tempo, sem uma notícia sequer. Acostumados a falar muito, mal podiam abrir a boca. A enfermeira do quadro, tal qual àquela dos filmes de guerra, colocava o dedo indicador nos lábios, fazendo bico.

Obedientes, iniciavam falando ao pé do ouvido, em seguida, não conseguiam medir o volume das falas: – E a mãe? Precisamos saber como ela está. – Quem vai procurar alguém para perguntar? – A essa hora, ninguém vai dar informação. – Vai tu, pois conheces o funcionamento do hospital.

Sem alternativa, seguiam impacientes esperando por notícia.

De repente, um deles avistou um conhecido ao fundo do corredor imenso. Era, sim, o colega da irmã mais velha. O fora há muitos anos. Talvez nem sequer se lembrasse dela. Mas tentariam de qualquer forma. Gritar não podiam. Não podiam também sair correndo ao seu encontro. O corredor enorme e antigo, assim como toda arquitetura do prédio, com tábuas que se mexiam ao pisá-las, fazia ruídos a qualquer passo.

– Mas tem que haver um jeito! Vai lá e chama o cara!

No vai e vem das discussões, um se decidiu: – Psiu… psiu… psiu… Em vão, o alvo não foi atingido. O moço nem viu que era com ele. Novamente: – Psiu… psiu…psiu… Ainda nada.

Era difícil crer que não conseguiriam respostas depois de tantos sacrifícios. Tinham vindo de tão longe! Sim, a doença era grave e a mãe se negava a alguns procedimentos. Afinal, uma fístula no braço, para o resto da vida, não era pra qualquer um! Esperavam, então, que pudesse, um cristo, dizer-lhes que havia salvação.

Em meio a discussões silenciosas, não perceberam que, indo ao encontro do tal informante, estavam duas senhoras idosas, que caminhavam com dificuldade e que, a cada psiu, se voltavam para eles.

Quando se deram conta do que estava acontecendo, não havia mais tempo de desfazer o mal-entendido. Tentavam sinalizar para que não voltassem. Se entreolhavam, quase a gargalhadas, implorando para que alguém tivesse uma ideia para mudar a situação. – Vai lá, diz que não é pra elas! Não conseguiam.

As duas deram meia-volta a caminhar no longo corredor. Os passos curtos e vagarosos demonstravam a idade e a paciência em atendê-los. Eles seguiam sinalizando que não voltassem, num movimento que imitava um aceno. E elas respondiam também acenando. Isso demorou uma eternidade. Os seis já não aguentavam mais. Certamente, cairiam num riso descompensado. Mas as idosas estavam chegando mais perto e mais perto. E quando se aproximaram, ao invés de perguntarem o que queriam com elas, deram-lhes a notícia.

O riso enrustido agora se desfez.

 

 

Sou Kátia Nascimento. Muito de professora. Muito de acadêmica. Muito de escritora. Muito de Umbandista. Como professora, sou das Letras. Como acadêmica, sou das Letras. E mais Letras como escritora. Como Umbandista, sou de Iemanjá, que representa as águas salgadas que envolvem o Universo. E é nesse envolver o Universo que me lanço em lugares distintos, sem nunca me sentir pertencente. Sou brasileira, do Rio Grande do Sul. Mas, a vida meio nômade que meu pai nos proporcionou, me fez viver um pouco em cada canto. Então, sou muito gaúcha, um pouco paranaense e um pouco catarinense. Agora sou um pouco portuguesa, SE CALHAR, aveirense. Também canto e faço teatro. Publiquei A vida Mística de Eugênia (2017), pela Editora Chiado, Rio das Pedras (2020), pela Editora Traços & Capturas, Fio do Silêncio (2021), pela Kotter do Brasil, Emboscada (2023), pela Vespeiro Edições, de Curitiba, Crônicas de Saravá – memórias de um cavalo de Umbanda (2023), pela Kotter de Portugal, e O Livro no Corpo (2025), também pela Kotter de Portugal.

Retalhos poéticos de Drummond

No meio do caminho tinha um banco,
Onde sentou-se José,
Naquela tarde de maio,
De mãos dadas com a fé.

Com sua lanterna mágica,
Esperou pelo anoitecer,
Ainda que mal soubesse
A fragilidade do ser.

Dançar o Bolero de Ravel
Estava nos desejos seus.
Mas, na igreja, o sino tocava,
A canção final de adeus.

De surpresa vem a quadrilha
Na procura da poesia,
Trazendo a canção amiga
Como um presente do dia.

E para ser um homem livre,
A difícil escolha não é segredo,
Pois, a ausência da coragem,
Para o poeta é um brinquedo

Mas, para sempre não é definitivo,
Em confronto com a eternidade,

O tempo passa? Não passa.
Passa a vida, na verdade.

Na memória o inconfesso desejo:
Recomeçar sem medo da dor,
Vencer a máquina do mundo,
Para viver um grande amor.

Trabalho elaborado com a utilização de 34 títulos
de poemas de Carlos Drummond de Andrade.

 

Este poema (Retalhos poéticos de Drummond) venceu o Concurso Poesia BR #10 da Editora Versiprosa.

 

 

Ildebrando Pereira da Silva nasceu em Lorena /SP em 26 de março de1952. Formado em Direito pela Universidade de Taubaté UNITAU.

Poeta premiado em concursos, sendo três em 2025. Autor dos livros Fantasia, Sonho de Papel, Sob o olhar da poesia Por onde anda a poesia, além da participação em coletâneas. Declamador ganhador de vários prêmios. Participou de grupos de canto coral, grupos de teatro e atuou como radialista na Rádio Cultura de Lorena. Membro Fundador da Academia Lorenense de Letras e Artes – ALLARTE, sendo o idealizador da sua criação, e seu presidente.

UBE Cast - Luiz Carlos Freitas - Blog

UBE Cast entrevista LUIZ CARLOS FREITAS | Ep. #10 – Parte 01 | Temp. #02

Luiz Carlos Freitas é gaúcho de Pelotas (RS). Associado da UBE, ele é romancista, jornalista, cronista, e colunista político. De família humilde, neto de imigrantes portugueses, começou a trabalhar aos 10 anos e exerceu diversas profissões, até chegar ao jornalismo. Autor emergente da literatura contemporânea brasileira, Freitas publicou onze livros (três deles em segunda edição) e milhares de crônicas, contos e artigos em jornais impressos, revistas, blogs, sites e em plataformas sociais. Leitor voraz, lapidou a escrita lendo os clássicos da literatura. Embora trabalhe com praticamente todos os gêneros é no romance de crítica social que se sente mais à vontade. Suas obras espelham grandes dramas coletivos e individuais e são repletas de personagens que vivem à margem da sociedade, com ênfase na redenção dos humilhados e oprimidos. Freitas defende o engajamento do escritor na construção de um mundo mais justo, fraterno e igualitário.

Assista agora a entrevista completa com o autor Luiz Carlos Freitas: