“Pneumotórax”, por Maria Teresa Fornaciari

“A perspectiva à minha frente é muito sombria. Meu País está em grandes Apuros e tem muito pouca Base para a Esperança. O Corpo do Povo parece esgotado pela luta e a Venalidade, o Servilismo e a Prostituição comem e se espalham como um câncer.”

O excerto, citado por Susan Sontag, parece diagnosticar com veracidade o sentimento de quem vive neste tempo, neste espaço. O depoimento acima, que fala do que lemos em nossos jornais de hoje, é de 1772: um trecho de diário de John Adams, diplomata e segundo presidente dos Estados Unidos.

A Vida segue e se encaixa naquela moldura de palavras do estadista: os Apuros traduzem nossa angústia em consequência da falta de harmonia que vai sufocando o pulmão, exausto de tanto pneumotórax. Com tal procedimento, o ar é insuflado no espaço pleural para colapsar parte do  órgão doente, mas esse espaço vai se fechando e descartando a vida, amortalhando a Esperança.

“Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.

A vida inteira que poderia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.”

Os versos antológicos de Manuel Bandeira registram com fidelidade a angústia da falta de ar, da dificuldade de respirar não só do corpo, mas também do espírito. Se o poeta tratava da tuberculose no século XIX, a frustração, a depressão, ou a melancolia desprovida de seus encantos, vai ao encontro do câncer como enigma mal resolvido no século XX, doença provocada por constante repressão do sentimento; o que irrita, corrói, consome lentamente e em segredo.

A doença é sempre metáfora do desequilíbrio indivíduo/sociedade, pontuou Susan Sontag. Depois da tuberculose, o câncer, a aids e, já neste século, a covid, a depressão e o Alzheimer. O viver é carimbado com a nódoa da carência e a saúde vulgariza-se. As fantasias modernas se concentraram e tornaram o isolamento status quo, exílio,  como se as doenças fossem sinais do mal e, ao mesmo tempo, oportunidades de redenção.

Venalidade e Servilismo de que trata John Adams invadem nossas preocupações como cânceres invasivos e somos destruídos inexoravelmente, pois cura já não há para um Corpo extenuado de dor diante de tanta guerra, de tanta desumanidade. O mundo torna-se uma nódoa que reflete pessoas idênticas, como se tivessem sido programadas pelo progresso e pela verdade e, se não existissem, poderiam ser construídas, deixando de lado seu senso crítico e seus olhos de lince. A Prostituição se instala na Política e o mundo sem as metáforas da doença tornam-se fantasias direitistas, que agridem também a natureza.

As pessoas duram mais, envelhecem e se perturbam com a desordem, com a estagnação do fluxo de energia vital. Segundo Menninger, “a doença é em parte aquilo que o mundo fez a uma vítima, mas, na maior parte, é aquilo que a vítima fez ao seu mundo e a se mesma.”

“Então, doutor, não é possível tentar o Pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

 


Maria Teresa Hellmeister Fornaciari nasceu em São Paulo em 1954. Mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP, escreveu Tambores e Violinos (poesia), Encontros e Des-Encontros, Avesso Sentido e Coisas que não importam (contos), além de Atchim (literatura infantil). Frequentou oficinas de escrita, recebeu prêmios em vários concursos literários e, também, a indicação para o Jabuti, em 2016, de seu livro de contos Avesso Sentido. Com Dora, lançado no início de 2026, abriu uma nova vertente em sua carreira literária: o romance de formação.