Primeiro round.
Ali dentro éramos três. Eu, ele e Deus contra nós dois. O russo mastigava o protetor com a boca aberta como um cachorro que não larga o osso. Espalhava os braços, acenava para o pessoal, socava o ar e dava uns saltinhos igual a uma bicha, como se estivesse me desafiando. Como se estivesse dizendo, “tá vendo seu merda, eles me adoram e você está sozinho”. Eu estava cansado e puto da vida. Na noite anterior a vaca da Rute resolveu brigar e revirar um monte de coisas da minha vida, do passado, sabendo que a luta era hoje. Eu sai do hotel e fiquei andando um tempão por Las Vegas pensando no tempo em que eu ficava na entrada do Home Depot esperando o trampo do dia, ou lavando prato, lavando carro, todo molhado e tossindo sem parar. Nem dormi pensando que eu tinha vindo pra esse inferno cheio de luz ardendo na minha vista por causa dela, pra juntar um dinheiro e pra voltar. Eu olhei pra ele e fiquei com medo, dele e de mim, pois no momento que começasse a quebrar aquela cara branca com meu soco eu não ia parar. Sei lá, eu tinha uma coisa meio animal que até me dava medo.
O juiz perguntou se tava tudo ok e bateu a palma emborrachada no meio do ringue. Normalmente, pra gente civilizada, isso é sinal pra tocar as luvas, e eu até que fui lá e estendi os dois punhos, que o safado recusou tocar. Lembrei do dono do Car-Wash, aquele gaúcho pilantra que não me pagava. Até chegou perto, mas não chegou a tocar, e foi aí que eu vi que ele era maior do que eu, e foi aí que eu fiquei com mais raiva ainda dele. Eu sou um cara gozado mesmo, o filho da puta ali doido pra me foder e eu ainda vou lá encostar minha luva na dele. A vaca da Rute tem razão, para um cara com segundo grau completo e que arranha inglês, eu era meio otário e sem ambição. Por um lado tinha sido bom eu ter mandado o dinheiro. Ter trazido essa vigarista pra cá. Assim eu pensei que podia vigiar melhor. Antes da primeira porrada, ficamos ali andando em círculos, esquivando, estudando o olho um do outro naquela frieza, como os bichos do canal do mundo animal. Eu fiquei gingando na frente do cara, afinal eu era brasileiro.
A primeira porrada foi minha, mas não pegou legal. O professor falou que o nosso corpo tem 203 ossos e que pra se ganhar uma parada a gente só precisa quebrar um só. Porra será que a Rute está por aí? Dei logo uma cabeçada no esterno dele pra ficar sem ar. O juiz me advertiu e eu fui ficando puto também com o juiz. Ai eu resolvi recuar, e ele cresceu. Me deu um chute nas costelas que pegou e cheio, deu até uma certa falta de ar. Na verdade eu dei mole e ele começou a me socar sem parar. Olhei no fundo do olho dele e parecia que ele estava gostando daquele negócio de ficar me dando porrada na cara. Quando eu caí no chão olhei e tinha um cara na terceira fila que ficava rindo da minha cara. Devia ter reagido. Devia ter dado umas porradas na Rute. O professor diz que o ultimeitifáiti vai salvar minha vida, sei lá. Sei lá, de repente ela está certa. Mas comigo é assim, fico na dúvida de fazer alguma coisa, o tempo passa, e eu não faço nada. Eu devia ter dado aquela porrada quando ele abriu a guarda. Agora é tarde. Um supercílio aberto não dói muito, mas causa uma má impressão danada para os juízes. A campainha tocou. Vou ter que reverter essa situação. Fui andando para o meu canto de cabeça baixa. Parceirinho arqueava os ombros e perguntava o que estava acontecendo. Olhei para o cara da terceira fila e ele espremia o beiço e balançava o polegar pra baixo. Sentei no meu canto, caladão.
Segundo Round
O Merthiolate, éter ou sei lá que merda era aquela, ardia um bocado, mas era bom pra estancar o sangue. Pra ver se estanca também minha raiva que não parou desde quando a Rute disse que ia casar com um gringo pra pegar o grincardi. Que isso, que aquilo, que aquilo outro, o Professor e o Parceirinho ficaram atazanando minha cabeça com um monte de teoria até que a campainha tocou, e eu já sai partindo pra dentro daquele sunofabitchi que tava comendo a Rute.
Minha cara estava cheia de vaselina. Eu já estava todo fodido. Eu não via nada. Minha cabeça latejava de dor. Eu sentia meu sangue ferver. Tive tanta raiva que parecia que meu peito ia explodir. Me deu vontade de dar um tiro na cara daquele filho da puta, mandar o Professor ir tomar no cú, o Parceirinho se foder, mandar aquele babaca da primeira fila calar a boca, cabecear o septo do juiz, socar a cara da Rute até ela parar de ter razão. Eu sentia meu sangue ferver. Até que enfim, consegui derrubar o cara. Cai por cima dele, o cara fedia a mofo. Quando imobilizei o infeliz, ele suava igual a uma ratazana. Fiquei mirando aquela tatuagem de sereia no trapézio dele, doido pra arrancar com os dentes igual ao maiqui taison. O cara era americano, acho que ele estava com nojo do meu suor se misturar com o dele, pois aqui eles não gostam de preto, e aí eu encaixei meu cotovelo bem no meio dos cornos dele. Na volta ele me deu uma porrada debaixo do queixo. Nem doeu, por que eu já estava meio cego de raiva. Uma pasta vermelha começou a escorrer do nariz dele. Peguei o braço dele e encostei no meu peito, cai para o lado e de quebra ainda dei um chute na cara dele. Enrosquei as pernas até fechar o triângulo. Tentei a imobilização, mas o cara parecia de borracha. Fui chamando no braço até torcer legal. Creck. Aí eu já não lembro mais nada. Foi tudo muito rápido. Eu tava cansado e puto da vida. Meu supercílio parecia uma bica sem carrapeta. Eu não ouvia nada. Só senti tudo rodando, um cara de preto me empurrando e o Parceirinho me levantando e rindo pra mim sem dois dentes laterais. O desgraçado ria, ria e gritava na minha cara um monte de coisas que eu não conseguia entender. Uma tonteira gostosa bateu na minha cabeça. Minha vista foi voltando. Aí é que eu percebi onde eu estava. Abracei o Professor e comecei a chorar igual como meu filho que ficou em Minas faz. Veio um cara da televisão com o microfone me chamando de Dêividi, perguntando não sei o que. Eu disse yes, yes, waza gud fáiti. Ai depois ele perguntou outra coisa, e eu falei meibi, que quer dizer talvez, pois quando tu não entende uma situação o melhor mesmo é ficar na tua. Mas ai não sei o que me deu pra sentir saudade daquela vaca….fiquei olhando ao redor pra ver se via aquela vigarista… agarrei o microfone e gritei pra todo mundo escutar.. Tênquiu. Ai lóviu Rute!! Todo mundo escutou. Até o cara da terceira fila, aquele que ficava rindo enquanto eu estava fodido, aplaudiu meio contrariado.

Francisco Rogido nasceu no Rio de Janeiro em 1972. É mestre em História, escritor e tradutor. Trabalhou por alguns anos como tradutor do projeto Biblioteca Digital Mundial (wdl) da Biblioteca do Congresso/Unesco em Washington DC. Teve contos publicados em sites literários portugueses como Pnet Literatura, na Revista Cult (Brasil), Agália (Espanha), e Revista da Faculdade de Letras de O Porto, E-Fabulações, SP Review. O conto acima, junto aos outros da série, ficou entre os dez finalistas do Prêmio Latino-Americano de Literatura Jovem da Aliança Francesa de São Paulo-Brasil/2008