Ademir Barbosa Júnior vence terceira edição do Prêmio Pallas de Literatura

O livro de contos ‘A pombagira do fim do mundo e outros contos’ foi escolhido entre 152 inscritos e será publicado pela Pallas no primeiro semestre de 2027.

A Pallas Editora anuncia Ademir Barbosa Júnior, o Pai Dermes de Xangô, como vencedor da terceira edição do Prêmio Pallas de Literatura, com o seu livro A pombagira do fim do mundo e outros contos. Reunindo 14 histórias, a obra foi escolhida entre 152 inscritas de diferentes regiões do país e será publicada pela editora carioca no primeiro semestre de 2027.

Nos contos vencedores, situações aparentemente ordinárias ganham contornos extraordinários e transitam entre as relações cotidianas e o universo sagrado das religiões de terreiro. Dirigente de uma tenda de Umbanda, ogã de Candomblé e autor de dezenas de livros sobre religiões tradicionais de terreiro, Ademir faz questão, porém, de separar a literatura do caráter doutrinário.

“O que importa é o verossímil, não a verdade ou o retrato de uma suposta realidade. O conto ou poema que se vale da espiritualidade das religiões de terreiro não é uma palestra, um bate-papo sobre história, fundamentos e doutrinas. É criação, recriação. Tem de ser literatura”, afirma o autor paulista.

Para Eliana Alves Cruz, integrante do júri final, o livro vitorioso se destacou pela combinação de elementos pouco usuais na literatura brasileira contemporânea. O outro jurado, Marcelo Moutinho, corrobora com a sua visão. Os dois já foram agraciados pelo Prêmio Jabuti na categoria Contos.

“Uma obra que se sobressaiu das demais pelo humor, pelo inusitado e pela coragem de incluir elementos do panteão das religiões de matriz africana misturados com cotidiano de um país rico em tipos populares e em usar muito do erotismo e desse humor escrachado, tudo numa dose muito equilibrada e com desfechos surpreendentes”, pontua Eliana.

O humor também tem, para Ademir, uma relação direta com a sua experiência religiosa e, naturalmente, de vida. Afinal, ele acredita que “tudo num autor é autobiográfico” mesmo, e principalmente, quando ele não está escrevendo sobre si mesmo.

“No contato com Exu, e aqui vem a vivência dos ensinamentos ancestrais, aprende-se que o riso e a gargalhada dissolvem miasmas de toda espécie. Assim também com o humor na narrativa: os moralismos, as certezas, as imposições de toda sorte perdem seu valor absoluto. Há uma inversão da ordem, pois o riso provoca o caos da incerteza para novos ajustes, novas composições”, explica Ademir.

 

Prêmio passa de romance para conto

Criado em 2024, quando a Pallas completou 50 anos, o Prêmio Pallas de Literatura chega à terceira edição com uma mudança no seu eixo. Após duas edições dedicadas ao romance, passa a aceitar na disputa apenas livros de contos. A decisão buscou ampliar as possibilidades de participação de escritores negros e tornar a premiação acessível também a autores que nem sempre podem se dedicar à escrita de um romance.

“A mudança de romance para conto traz mais autores e mais possibilidades. Há bons autores que nem sempre têm disponibilidade para se dedicar à escrita de um romance, que não é nem mais nem menos importante que o conto, mas exige mais tempo e dedicação. Acho que é um marcador de democratização do prêmio”, avalia Cristina Fernandes Warth, editora da Pallas.

Em 2024, a vencedora foi a multiartista brasiliense Tatiana Nascimento, com o romance Água de maré. O romance escolhido em 2025 foi Malhada das graúnas, da médica pernambucana Márcia Moura.

Em 2026, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia foram as regiões que concentraram o maior número de participantes, mas também houve concorrentes do Ceará, Distrito Federal, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul, entre outros estados, nesta terceira edição — a primeira conquistada por um escritor.

Na primeira etapa da seleção deste ano, os escritores Carlos Eduardo Pereira e Calila das Mercês escolheram 12 obras. Em seguida, Eliana Alves Cruz e Marcelo Moutinho avaliaram esses livros pré-selecionados e optaram pelos contos de Ademir.

Entre literatura e religiões de terreiro Nascido em Piracicaba (SP), em 1972, Ademir Barbosa Júnior é escritor, pesquisador, professor e dirigente da Tenda de Umbanda Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas, fundada em 2015. Conhecido também como Pai Dermes de Xangô, é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente realiza pós-doutorados em Comunicação, na Universidade Paulista (UNIP), e em Ciências da Religião, na PUC-Campinas.

Autor de mais de uma centena de livros, dezenas deles publicados, Ademir tornou-se especialmente conhecido por sua produção ligada às religiões de terreiro, mas a ficção acompanha a sua trajetória desde os primeiros livros. Entre os títulos estão Memórias do presidente, premiado no 1º Festival Universitário de Literatura; O sapo voador, selecionado para programas de leitura do governo federal; o romance policial Quem matou João Paulo; Walter Wanted ou o Evangelho Queer de São José; e Filé à cubana.

“Comecei a publicar com ficção em sentido amplo, nunca deixei de fazer e ainda tenho muitos inéditos. Só não apareciam tanto. Com o Prêmio Pallas de Literatura, esse trabalho fica mais evidente”, almeja o escritor.

A escolha também surpreendeu a própria editora. “É um autor muito ligado ao universo afro-brasileiro, um sacerdote, um estudioso das religiões, que tem muita coisa publicada nessa área, mas que tem um veio literário. E os contos são divertidos, são instigantes. São retratos de trabalhadores e do cotidiano muito atual, muito ligado ao universo das religiões afro-brasileiras. Para mim, foi uma grande e boa surpresa”, declara Cristina.

Além da publicação de A pombagira do fim do mundo e outros contos pela Pallas, prevista para o primeiro semestre de 2027, Ademir receberá mentoria literária do escritor Henrique Rodrigues, curador do Prêmio Pallas, durante o processo de preparação e lançamento da obra.

 

Um café antes da notícia

Ademir Barbosa Júnior estava em casa quando Henrique Rodrigues entrou em contato para conversar. O escritor perguntou se poderiam falar mais tarde, mas ouviu do curador que o assunto era urgente e que ele estava na sede da Pallas. Desconfiou do motivo por alguns instantes.

“Pedi um tempinho para tomar um café, pois depois tinha de me preparar para tocar gira, e um filho de santo viria me buscar. Tomei o café e conversamos, junto com as editoras Cristina e Mariana. Fiquei muito feliz e agradecido, inclusive para com a parte espiritual que cuida de meu trabalho como ficcionista”, conta.

Orientado a manter o resultado em sigilo até o anúncio oficial, Ademir dividiu a notícia apenas com a família e poucas pessoas próximas. A primeira foi Cleusa Caldeira, sua supervisora de pós-doutorado na PUC-Campinas. “Se o título do livro traz a figura da Pombagira, tinha de ser uma mulher”, diz Ademir, feliz da vida com a novidade.

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